Ordinárias, periguetes, popozudas, mulheres-jacas e melancias. Atualmente, somos bombardeados com uma música popular de gosto duvidoso, em que as mulheres recebem diversos apelidos eróticos fazendo referência ao corpo e as suas práticas sexuais. E o sucesso atual das mulheres-frutas comprova que esse fenômeno está longe de acabar. Entretanto, será que isso representa uma nova liberdade sexual ou repetem um modelo machista de tratamento?
Alguns defendem que esteja representando uma nova mulher, mais liberal e menos intimidada com as opiniões alheias sobre a sua sexualidade e a forma de exercê-la. Apesar desses conceitos questionáveis, o mundo vê a entrada de mulheres no mercado fonográfico também cantando sobre sexo. E é o que tentaremos decifrar, será que é uma revolução barulhenta ainda machista ou o gênero feminino está se sentindo mais livre?
Agora mexe vai, Mexe, mexe mainha
Agora mexe, Mexe, mexe lourinha
Agora mexe, Mexe, mexe neguinha
Agora mexe Balancando a poupancinha
Mexe, mexe, pro lado
Mede, mexe, pro outro
Vai mexendo embaixo
Vai mexendo gostoso
“Dança do Bumbum”, música composta por Do Samba, Gilmar, Revolução, Sinho do Grupo “È o Tchan”.
O estrondoso sucesso do Grupo “É o Tchan” na década de 90, deu inicio há uma série de cópias de grupos populares que exaltavam a “abundância” da mulher brasileira. As aparições eram constantes, e os grupos pareciam imunes as críticas feitas pelos letrados, inclusive de forma generalista e preconceituosa. Acolhidas pela massa, e com um empurrãozinho do “jabá”, os programas populares de domingo se renderam a nova mania nacional e suas musas, as dançarinas Carla Perez e Sheila Carvalho que posaram inúmeras vezes para as revistas masculinas. A fama diminuiu bastante, e indústria fonográfica mudou consideralvemente desde então, todavia esse tipo de linguagem na música não deixou de ser um sucesso entre o público. Desta vez, incorporado agora pelo funk carioca que já tinha notoriedade no Rio de Janeiro, mas não ainda no nível nacional.
O grande exportador da “nova música popular” brasileira era o estado da Bahia, que oportunamente chamado de “terra da alegria”, viu o seu nome ligado a indústria cultural do axé/pagode. Ao lado do turismo, Salvador se transformou na principal cidade da região Nordeste no que diz respeito à sensualidade do povo e a diversão no eterno “clima de verão” e carnaval.
Curiosamente, é a mesma Bahia que deu origem décadas atrás a um dos maiores compositores do Brasil, e ainda pouco conhecido até mesmo no estado, Batatinha. Negro e de origem pobre, Batatinha tem mais de cem composições gravadas nas vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, dentre outros artistas. As suas letras eram marcadas pela ironia, crítica a pobreza e aos hábitos locais. O compositor morreu em 1997, e com poucos registros das suas composições.
Tá sorrindo de mim
Porque me viu sorrindo
Mas agora estou fugindo
De tudo que a ilusão me deu
Pois da minha vida
Quem sabe sou eu
O que é que eu posso fazer
Se a esperança não quer
Se afastar do meu peito
Se a consciência me diz
Que o meu direito é ser feliz
Daí então vou sorrir da ironia
Vou saber que todo dia
Não é igual a outro dia
“Ironia”, música composta por Batatinha.
A música satírica e popular de Batatinha, dentre outros compositores elogiados pela crítica especializada, como Riachão , deram lugar a uma bastante diferente. Mais popularesca, ou seja, menos comprometida com a letra, a música que a massa hoje consome talvez esteja mais pobre, mesmo entre aquela população que tinha o mesmo nível intelectual de antes. O que muitos defendem é que há um tom geral de “esculacho”, e o que o “povão”, principalmente os jovens que querem apenas se divertir.
Entretanto, estas composições interpretadas como brincadeira podem conter fragmentos de uma sociedade bastante preconceituosa, principalmente para com as mulheres. É o que afirma o sociólogo Silvio Benevides, doutorando em “Juventude e Política” pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Acho que essas músicas são sim um reflexo do machismo, que vê a mulher como objeto. Isso ocorre não só na música, mas também na publicidade e em outros setores” destaca o sociólogo.
E ela tinha um testão
Tinha um zoião
Não era mulher
Era uma assombração
E ela tinha uma papada
Parecia um urubu
Tinha uma impigem na cara
E coçava uu..uhhhh
Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão
“Vaza canhão”, música composta por Robyson da banda Black Style
Além de refletir um discurso machista e até deturpador da imagem do gênero feminino, alguns pesquisadores defendem que as mulheres, sobretudo negras e de origem pobre sofrem mais com esse tipo de letra, como explica o pesquisador Diógenes Barbosa, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Quando Ivete Sangalo se auto-intitula ‘piriguete’ pode parecer legal e divertido. Mas, quando se trata da mulher vinda das minorias sociais menos privelegiadas a visão da sociedade é bastante diferente, pois tendem a rotular que a maioria delas não merecem respeito, mesmo que muitas nem não gostem desse tipo de música”. O pesquisador que estuda “A mulher negra no pagode” também constesta essa mulher liberal vinda das favelas, e até a classe média que consome esse tipo de música. “Parece que essa mulher ainda serve ao modelo patriarcal, em que representa um objeto sem voz, ou seja, apenas um corpo”.
E quando as mulheres cantam?
Eu vou pro baile procurar o meu negão,
Vou subir no palco ao som do tamborzão
Sou cachorrona mesmo
E late que eu vou passar
Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar
Dj aumenta o som
Está é a versão “light” da música composta por Waleska do grupo carioca “Gaiola das Popozudas”. Vejam aqui a versão “hard” da música . Vou avisando que é pesado.
No anos 2000, desponta na cena carioca a mulher mais controversa do chamado “funk liberal”, a cantora Tati Quebra Barraco. Com afirmações do tipo “Sou feia, mas tô na moda”, que mais tarde virou título de um documentário, ela deu inicio há uma série de grupos funkeiros de mulheres despudoradas falando de sexo anal, e de como preferem transar com os homens. Agora é a mulher do microfone, mas será que é um novo modelo de comportamento inconscientemente feminista? O sociólogo Silvio Benevides é categórico na resposta. “ A Rita Lee diz algo q eu adoro ouvir: Deixe que o patriarcado continue se preocupando apenas com bundas e peitos e popuzudas e periguetes. Enquanto os homens pensarem que as mulheres são apenas isso, elas vão armando o bote na surdina e quando a patriarcado acordar, vai ser tarde demais e eu concordo com ela: Acho que o patriarcado está com os seus dias contados. Mas não vá pensando que isso ocorreu por contas das tatis quebradeiras de barracos. Foram outros tipos de mulheres que transformaram e transformam a condição feminina. Estas até chutaram o pau da barraca. mas o barraco continuou de pé. Então, Dona Tati Quebra Barraco não é uma revolucionária, nem rebelde, nem coisa alguma. É mais um lixo da indústria cultural mas, de repente, esse tipo de lixo cultural pode ser útil para as conquistas femininas”.
Mesmo parecendo conveniente com a sociedade patriarcal, esse tipo de música pode sim representar uma mulher mais à vontade com a própria sensualidade, sobretudo como a usa, com quem e como canta. O problema é que isso está restrito apenas ao microfone, nos clubes noturnos, as saias curtas e no baile funk. O exagero está por todo o canto quando se fala de sexo, tanto na música de “favelado” quanto nos clubes da classe média que ouvem as músicas cantadas pelo Justin Timberlake. Talvez, daqui há alguns anos os compositores encontrem um maior equilíbrio. No entanto, isso será mais interessante quando as mulheres possuírem uma real liberdade sexual sem julgamentos prévios ou uma repressão travestida de bom comportamento.
Colaborou gentilmente com a edição, Thiago Meia.
Alguns defendem que esteja representando uma nova mulher, mais liberal e menos intimidada com as opiniões alheias sobre a sua sexualidade e a forma de exercê-la. Apesar desses conceitos questionáveis, o mundo vê a entrada de mulheres no mercado fonográfico também cantando sobre sexo. E é o que tentaremos decifrar, será que é uma revolução barulhenta ainda machista ou o gênero feminino está se sentindo mais livre?
Agora mexe vai, Mexe, mexe mainha
Agora mexe, Mexe, mexe lourinha
Agora mexe, Mexe, mexe neguinha
Agora mexe Balancando a poupancinha
Mexe, mexe, pro lado
Mede, mexe, pro outro
Vai mexendo embaixo
Vai mexendo gostoso
“Dança do Bumbum”, música composta por Do Samba, Gilmar, Revolução, Sinho do Grupo “È o Tchan”.
O estrondoso sucesso do Grupo “É o Tchan” na década de 90, deu inicio há uma série de cópias de grupos populares que exaltavam a “abundância” da mulher brasileira. As aparições eram constantes, e os grupos pareciam imunes as críticas feitas pelos letrados, inclusive de forma generalista e preconceituosa. Acolhidas pela massa, e com um empurrãozinho do “jabá”, os programas populares de domingo se renderam a nova mania nacional e suas musas, as dançarinas Carla Perez e Sheila Carvalho que posaram inúmeras vezes para as revistas masculinas. A fama diminuiu bastante, e indústria fonográfica mudou consideralvemente desde então, todavia esse tipo de linguagem na música não deixou de ser um sucesso entre o público. Desta vez, incorporado agora pelo funk carioca que já tinha notoriedade no Rio de Janeiro, mas não ainda no nível nacional.
O grande exportador da “nova música popular” brasileira era o estado da Bahia, que oportunamente chamado de “terra da alegria”, viu o seu nome ligado a indústria cultural do axé/pagode. Ao lado do turismo, Salvador se transformou na principal cidade da região Nordeste no que diz respeito à sensualidade do povo e a diversão no eterno “clima de verão” e carnaval.
Curiosamente, é a mesma Bahia que deu origem décadas atrás a um dos maiores compositores do Brasil, e ainda pouco conhecido até mesmo no estado, Batatinha. Negro e de origem pobre, Batatinha tem mais de cem composições gravadas nas vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil, dentre outros artistas. As suas letras eram marcadas pela ironia, crítica a pobreza e aos hábitos locais. O compositor morreu em 1997, e com poucos registros das suas composições.
Tá sorrindo de mim
Porque me viu sorrindo
Mas agora estou fugindo
De tudo que a ilusão me deu
Pois da minha vida
Quem sabe sou eu
O que é que eu posso fazer
Se a esperança não quer
Se afastar do meu peito
Se a consciência me diz
Que o meu direito é ser feliz
Daí então vou sorrir da ironia
Vou saber que todo dia
Não é igual a outro dia
“Ironia”, música composta por Batatinha.
A música satírica e popular de Batatinha, dentre outros compositores elogiados pela crítica especializada, como Riachão , deram lugar a uma bastante diferente. Mais popularesca, ou seja, menos comprometida com a letra, a música que a massa hoje consome talvez esteja mais pobre, mesmo entre aquela população que tinha o mesmo nível intelectual de antes. O que muitos defendem é que há um tom geral de “esculacho”, e o que o “povão”, principalmente os jovens que querem apenas se divertir.
Entretanto, estas composições interpretadas como brincadeira podem conter fragmentos de uma sociedade bastante preconceituosa, principalmente para com as mulheres. É o que afirma o sociólogo Silvio Benevides, doutorando em “Juventude e Política” pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Acho que essas músicas são sim um reflexo do machismo, que vê a mulher como objeto. Isso ocorre não só na música, mas também na publicidade e em outros setores” destaca o sociólogo.
E ela tinha um testão
Tinha um zoião
Não era mulher
Era uma assombração
E ela tinha uma papada
Parecia um urubu
Tinha uma impigem na cara
E coçava uu..uhhhh
Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão Vaza canhão
“Vaza canhão”, música composta por Robyson da banda Black Style
Além de refletir um discurso machista e até deturpador da imagem do gênero feminino, alguns pesquisadores defendem que as mulheres, sobretudo negras e de origem pobre sofrem mais com esse tipo de letra, como explica o pesquisador Diógenes Barbosa, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Quando Ivete Sangalo se auto-intitula ‘piriguete’ pode parecer legal e divertido. Mas, quando se trata da mulher vinda das minorias sociais menos privelegiadas a visão da sociedade é bastante diferente, pois tendem a rotular que a maioria delas não merecem respeito, mesmo que muitas nem não gostem desse tipo de música”. O pesquisador que estuda “A mulher negra no pagode” também constesta essa mulher liberal vinda das favelas, e até a classe média que consome esse tipo de música. “Parece que essa mulher ainda serve ao modelo patriarcal, em que representa um objeto sem voz, ou seja, apenas um corpo”.
E quando as mulheres cantam?
Eu vou pro baile procurar o meu negão,
Vou subir no palco ao som do tamborzão
Sou cachorrona mesmo
E late que eu vou passar
Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar
Dj aumenta o som
Está é a versão “light” da música composta por Waleska do grupo carioca “Gaiola das Popozudas”. Vejam aqui a versão “hard” da música . Vou avisando que é pesado.
No anos 2000, desponta na cena carioca a mulher mais controversa do chamado “funk liberal”, a cantora Tati Quebra Barraco. Com afirmações do tipo “Sou feia, mas tô na moda”, que mais tarde virou título de um documentário, ela deu inicio há uma série de grupos funkeiros de mulheres despudoradas falando de sexo anal, e de como preferem transar com os homens. Agora é a mulher do microfone, mas será que é um novo modelo de comportamento inconscientemente feminista? O sociólogo Silvio Benevides é categórico na resposta. “ A Rita Lee diz algo q eu adoro ouvir: Deixe que o patriarcado continue se preocupando apenas com bundas e peitos e popuzudas e periguetes. Enquanto os homens pensarem que as mulheres são apenas isso, elas vão armando o bote na surdina e quando a patriarcado acordar, vai ser tarde demais e eu concordo com ela: Acho que o patriarcado está com os seus dias contados. Mas não vá pensando que isso ocorreu por contas das tatis quebradeiras de barracos. Foram outros tipos de mulheres que transformaram e transformam a condição feminina. Estas até chutaram o pau da barraca. mas o barraco continuou de pé. Então, Dona Tati Quebra Barraco não é uma revolucionária, nem rebelde, nem coisa alguma. É mais um lixo da indústria cultural mas, de repente, esse tipo de lixo cultural pode ser útil para as conquistas femininas”.
Mesmo parecendo conveniente com a sociedade patriarcal, esse tipo de música pode sim representar uma mulher mais à vontade com a própria sensualidade, sobretudo como a usa, com quem e como canta. O problema é que isso está restrito apenas ao microfone, nos clubes noturnos, as saias curtas e no baile funk. O exagero está por todo o canto quando se fala de sexo, tanto na música de “favelado” quanto nos clubes da classe média que ouvem as músicas cantadas pelo Justin Timberlake. Talvez, daqui há alguns anos os compositores encontrem um maior equilíbrio. No entanto, isso será mais interessante quando as mulheres possuírem uma real liberdade sexual sem julgamentos prévios ou uma repressão travestida de bom comportamento.
Colaborou gentilmente com a edição, Thiago Meia.