Penguin Books cria o primeiro 'wiki-livro' da história, que pode ser escrito e alterado na internet através de sistema similar ao da Wikipédia. Dramas autorais são discutidos paralelamente, em blog.

"There was no possibility of taking a walk that day" ("Não havia possibilidade de dar um passeio naquele dia"). Com essa frase curta, a editora inglesa Penguin Books deu início a A Million Penguins (Um milhão de pingüins), primeiro 'wiki-livro' da história, um romance que pode ser escrito e alterado por qualquer um na internet, dentro de um prazo de seis semanas. Ou seja: nesse período, o que for criado por um usuário cadastrado poderá ser reescrito por qualquer outro, sem direito a chiliques autorais nem egotrips.

Em menos de um mês — desde o seu lançamento, no dia 1o. de fevereiro — A Million Penguins disparou de uma frase para mais de 600 páginas escritas e alteradas por internautas do mundo inteiro. Até agora, são 60 mil acessos individuais, 1.200 pessoas cadastradas editando seu conteúdo e mais de sete mil emendas feitas à história.

O sistema do PenguinWiki agrada por ser baseado na tecnologia de criação de posts colaborativos empregada pela Wikipédia — é o que o torna inovador e diferente de qualquer outro livro colaborativo online já feito. Outro diferencial é o fato de a iniciativa ter partido de uma grande editora; o que causa certa expectativa entre os autores, ainda que a Penguin Books não confirme a publicação, em papel, do resultado final.

"Qualquer um pode participar. Qualquer um pode escrever. Qualquer um pode editar"

O lema do projeto, "Anyone can join in. Anyone can write. Anyone can edit" (Entenda-se: anyone que seja fluente em inglês), é o pesadelo dos editores que trabalham com prazos apertados. Mas, para Jeremy Ettinghausen, encarregado das publicações digitais da Penguin, a possibilidade de A Million Penguins virar uma grande bagunça não é problema; pode ser uma solução. O romance-wiki seria um caminho para quebrar a escrita formulaica e lembrar aos autores que o romance é um mundo em que tudo, absolutamente tudo pode acontecer. A extensa lista de personagens esdrúxulos da história não deixa dúvidas quanto a isso: The Da Vinci Cod (O Bacalhau Da Vinci, "uma entidade misteriosa - é um peixe... ou algo mais?", diz a descrição), Papa Cottonballs (Papai Bolotas de Algodão) e The Tango Poisoner (O Envenenador do Tango, que mata suas vítimas dançando) que o digam...

Os capítulos são curtos e, até agora, os participantes têm contribuído com um traço em comum: um certo senso de humor psicodélico. Há até um desvio aparentemente mais escrachado que a linha original da história, listado em "Outros links que podem conter material útil e bem escrito" (versões alternativas da história). E, para evitar disputas que poderiam arruinar todo o projeto — as guerrinhas de 'apagar-reescrever-apagar' etc., comuns entre usuários da Wikipédia —, há um time de monitores do curso de escrita criativa da Universidade de Montfort de olho em possíveis infratores.

Sem trama?

Críticos do projeto têm reclamado da falta de enredo. Para Jon Elek, editor do blog que comenta a progressão do trabalho, é possível encontrar um equilíbrio entre a liberdade total e alguma linearidade.

"Fiquei desanimado com uns dois comentários que recebemos na semana passada, criticando a falta de uma trama no texto que temos até agora. Primeiro eu pensei que eram queixas exageradas, mas agora entendo o que estavam querendo dizer — e por outro lado também entendo as pessoas que logo no começo disseram que idéias tradicionais de enredo não se aplicavam a este projeto," analisa Jon.

Há um manual a ser seguido pelos usuários, não apenas técnico, mas contendo também regras básicas de ética. Uma vez desrespeitadas essas regras, o infrator pode ser suspenso e ter seu conteúdo removido do livro. E mais: segundo notifica uma seção dos termos de adesão ao projeto, "Ao postar sua contribuição ao romance-wiki no site, você dá à Penguin licença perpétua e livre de direitos autorais para uso, reprodução, adaptação, tradução, publicação, distribuição e exibição de qualquer conteúdo que submeta a nós, em todo o mundo, em qualquer formato hoje conhecido ou futuramente desenvolvido." Os autores não terão parte em quaisquer lucros eventuais do projeto.

Um novo mercado virtual

A Million Penguins não é a única experiência radical da editora inglesa no mundo virtual: desde setembro de 2006, a Penguin marca presença no Second Life (SL), universo virtual em 3-D inspirado pela literatura cyberpunk, imaginado, criado e mantido por seus 'habitantes'. E influenciado, inclusive, pela obra de Neil Stephenson, autor do termo metaverse (que define o espaço virtual do Second Life) e do livro Snow Crash, que a Penguin Books divulga no SL. Nesse novo mundo de possibilidades comerciais online, cuja tecnologia foi desenvolvida pela empresa Linden Lab, os usuários e possíveis leitores interagem através de avatares, representações virtuais tridimensionais de si mesmos

Com a entrada da Penguin nesse universo paralelo, os internautas que 'vivem' no Second Life têm acesso a livros da editora e podem até decorar suas 'casas' com eles, além de ler trechos das obras. A precisão de Ettinghausen é de que, em breve, autores da Penguin participarão de entrevistas e promoções no Second Life, criando seus próprios avatares para interagir com os de seus leitores.

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Fonte:http://portalliteral.terra.com.br/