VESTIDO PARA A GUERRA E PARA O CARNAVAL
Devo reconhecer o quanto me emociono com as coisas da cultura brasileira. Poucas figuras do nosso folclore ganharam tanta projeção nacional e até no exterior quanto o Caboclo de Lança do Maracatu Rural. Isso não se dá por simples acaso. É preciso mexer no caldeirão cultural alguns ingredientes, como: a resistência dos afro-descendentes trazidos à força para o Brasil, desde o Descobrimento; o espírito de sobrevivência, a magia e a cultura indígena que aqui já habitava; os usos e costumes da classe dominante e colonizadora portuguesa, por entre holandeses, franceses, espanhóis e ingleses que por aqui guerrearam, enriqueceram e exterminaram. O tempero a usar é o riquíssimo e inesgotável imaginário mítico e religioso ibérico, mediterrâneo, africano e indígena – o que não é pouco. O tempo, as perdas e ganhos, a natureza exuberante, as humilhações, maus tratos, as miscigenações, as razões do poder, as influências de homens e de deuses. Por trás da máscara que vemos, o arquétipo junguiano do guerreiro, do líder protetor que resgatará seu lugar, seu povo, suas riquezas, sua cultura. O Maracatu é isso: uma grande e incansável luta por dignidade.
Em Pernambuco, principalmente na Zona da Mata Norte, em cidades como, Nazaré da Mata e Goiana – pra citar apenas algumas -, cuja centenária cultura canavieira responde por grande parte dos avanços e atrasos sócio-econômicos da região, há registro de dezenas de Nações de Maracatu. São organizações poderosas, de cunho político-religioso, em muitos casos de mãos dadas com a Umbanda e o Candomblé que, não obstante o olhar incrédulo de alguns, ao longo do tempo vem se impondo como uma expressão cultural viva e edificante. Verdadeira expressão popular, ora festeira, ora política, ora mística, enche de orgulho aquela gente e o povo pernambucano e mais quem chegar de perto e de longe. E boa parte de toda codificação desses traços de cultura popular impregna a figura do Caboclo de Lança. E seu espírito corteja toda essa belíssima e plástica indumentária, às vezes, principal razão de ser desses guerreiros.
Ao som de poderosos tambores, chocalhos, taróis e atabaques, eis que vem ele e sua guiada(lança), além de 30 a 40 kg de roupas e adereços: Ceroulão(calça de chita com elástico prendendo à perna); Fofa(calça frouxa franjeada por cima do ceroulão); Meião(tipo jogador de futebol); Surrão(também conhecido como ‘maquinada’ – armação de madeira coberta de lã colorida, amarrada às costas, arqueando os ombros. Traz presa uma bolsa de tecido imitando couro de carneiro onde são presos cerca de 5 chocalhos na altura das nádegas); Chocalhos(emitem um barulho seco e agressivo, compassado com o movimento do caboclo, tentando espantar o azar); Gola(por cima do surrão, vai até os joelhos. Representa a maior parte de todo orgulho do Caboclo de Lança. Geralmente é de terbrim ou veludo, recebendo milhares de enfeites e adereços como, lantejoulas, vidrilhos, canutilhos e miçangas que o coboclo mesmo prega, tudo às custas de todas as suas economias. A cada ano essa peça vai recebendo mais e mais adereços, sendo possível reconhecer o valor do guerreiro pelo nível de elaboração dessa roupa); Lenço(colorido, amarrado na cabeça); Cabeleira(enorme, formada por finas tiras de papel celofane colorido e brilhoso, semelhante à juba do leão – símbolo de força, poder e privilégios que devem ser respeitados -, explicados na Mitologia e Psicologia, principalmente na perspectiva junguiana: são aspectos e símbolos encontrados no “inconsciente coletivo”); Galho de Arruda(atrás da orelha) e Cravo Branco(na boca – significando ‘corpo fechado’); Lança(guiada – de madeira e enfeitada com tiras de seda coloridas para dar impressão de velozes); Sapatos tênis ou Alpercatas( que suportem longas caminhadas por vários dias); Óculos( escuros – como a querer um disfarce, uma outra identidade); Pintura(no rosto com urucum, igual aos índios antes de entrar em combate.
São impressionantes, às vezes em grupo protegendo o cortejo, com damas, rei e rainha. Destemidos, desconfiam, ameaçam, protegem os seus – é seu momento - ... De forma que foi assim que paguei aquele mico: não reconheci ali sua história, sua cultura e seu aspecto de verdadeira Entidade... Quase forcei o homem a beber comigo. Mas, finalmente deu tudo certo. Assim é parte daquele tal carnaval pernambucano!
Pesquisa baseada em texto acadêmico de Roseana Borges de Medeiros – UFRPE, por ocasião da 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação – “O Caboclo de Lança do Maracatu Rural – o trabalhador rural se prepara para enfrentar a luta de classes”.
