De acordo com notícia publicada no site da agência de notícias inglesa BBC em sua edição de 20/1/11 http://www.bbc.co.uk/news/uk-12225163 , uma operação para controlar a epilepsia deixou Karen Byrne sem o controle de sua mão esquerda.
Imagine-se sendo atacado por uma de suas próprias mãos, que tenta repetidamente lhe esbofetear e socar. Ou ao entrar em uma loja e tentar virar à direita, uma de suas pernas decide que quer ir para a esquerda, deixando-o andando em círculos.
No verão passado conheci Karen Byrne, 55 anos de idade, em Nova Jersey, que sofre da Síndrome de Mão Alienígena http://en.wikipedia.org/wiki/Alien_hand_syndrome. Sua mão esquerda e ocasionalmente sua perna esquerda, se comportam como se estivessem sob o controle de uma inteligência alienígena. A condição de Karen é fascinante, não só porque é tão estranho, mas porque nos diz algo surpreendente sobre como nosso cérebro funciona.
Tudo começou depois que Karen fez a cirurgia quando tinha 27 anos, para controlar a epilepsia, que vinha transtornando sua vida desde que tinha 10 anos. A cirurgia para curar a epilepsia geralmente envolve identificar e depois de cortar uma pequena parte do cérebro, onde se originam os sinais elétricos anormais. Quando isso não funciona ou quando a área danificada não pode ser identificada, pode ser sugerido ao paciente algo mais radical. No caso de Karen o cirurgião cortou o corpo caloso, um grupo de fibras nervosas que mantém as duas metades do cérebro em contato constante.
Segundo Karen, "Eu tirava coisas da minha bolsa sem perceber e ia embora. Eu perdi um monte de coisas antes que percebesse o que estava acontecendo." O corte do corpo caloso curou Karen da epilepsia, mas a deixou com um problema completamente diferente. Karen me disse que, inicialmente, tudo parecia estar bem. Em seguida, os médicos perceberam um comportamento muito estranho. "O Dr. O'Connor disse: Karen que você está fazendo? Você está se despindo. Até que ele disse que eu não tinha idéia de que a minha mão esquerda estava abrindo os botões da minha blusa. "Então eu começava a reabotoar com a mão direita e, logo que eu parava, a mão esquerda começava a desabotoar-los outra vez. Então, ele fez uma chamada de emergência para um dos outros médicos e disse: Mike você tem que vir para cá agora mesmo, nós temos um problema".
Fora de controle:
Após a operação a mão esquerda de Karen ficou totalmente fora de controle. "Eu acendia um cigarro, e colocava-o no cinzeiro, então a minha mão esquerda se movimentava e jogava-o para fora. Eu tirava coisas da minha bolsa e sem perceber ia embora. Perdi um monte de coisas antes que eu imaginasse o que estava acontecendo." O problema de Karen foi causado por uma poderosa disputa dentro de sua cabeça. Um cérebro normal consiste de dois hemisférios que se comunicam um com o outro através do corpo caloso. O hemisfério esquerdo, que controla o braço e a perna direita, tende a ser o lugar onde os conhecimentos linguísticos residem. O hemisfério direito, que controla o braço e a perna esquerda é largamente responsável pela percepção espacial e os padrões de reconhecimento. Geralmente, o hemisfério esquerdo sendo mais analítico, domina, tendo a palavra final nas ações que realizamos.
A descoberta da dominância hemisférica teve suas raízes na década de 1940, quando os cirurgiões decididiram pela primeira vez cortar o corpo caloso para tratar a epilepsia. Após a recuperação, os pacientes parecam normais. Mas nos círculos de psicologia, logo eles se tornaram lendas. Isso porque aqueles pacientes, com o passar do tempo, revelaram algo que para mim é verdadeiramente surpreendente. As duas metades do nosso cérebro, contêm uma espécie de consciência separada. Cada hemisfério é capaz de independentemente fazer valer sua própria vontade.
Experimentos cerebrais:
O homem que fez muitas das experiências que primeiro comprovaram isto, foi o neurobiologista Roger Sperry. Em uma experiência particularmente impressionante, que ele filmou, podemos assistir a um dos pacientes com o cérebro dividido, tentando resolver um quebra-cabeças, e onde era necessário reorganizar alguns blocos de modo que coincidissem com o padrão de uma imagem. Primeiro, o homem tentou resolvê-lo com a mão esquerda (controlada pelo hemisfério direito), e que era muito boa nisso. Depois Sperry pediu ao paciente para usar a mão direita (controlada pelo hemisfério esquerdo). E ficou evidente que aquela mão não tinha a menor idéia do que fazer. Então a mão esquerda tentou ajudar, mas a mão direita não quis aceitar a ajuda, então elas acabaram se desentendendo como duas crianças pequenas.
Experimentos como esse, levaram Sperry a concluir que "cada hemisfério é um sistema consciente com desejos próprios, de perceber, pensar, lembrar, raciocinar, desejar e emocionar". Em 1981, Sperry recebeu um prêmio Nobel por seu trabalho. Mas, numa cruel reviravolta do destino, nessa época ele já estava sofrendo de uma doença cerebral degenerativa fatal, chamada kuru, provavelmente adquirida nos primeiros estágios de sua pesquisa, enquanto dissecava cérebros em laboratório.
A maioria das pessoas que tiveram o corpo caloso cortado, parece normal depois da cirurgia. Você pode passar por elas na rua e não observará nada de estanho nelas. Karen foi infeliz. Após a operação, o lado direito de seu cérebro se recusava a ser dominado pelo esquerdo. Ela sofreu com a síndrome da mão alienígena por 28 anos, mas felizmente para Karen, seus médicos descobriram uma medicação que parece ter conseguido manter o lado direito de seu cérebro sob alguma forma de controle.
Mesmo assim ao me despedir eu senti que era um momento delicado, e quando lhe disse adeus, dei as duas mãos para um firme aperto de mãos de agradecimento.
Imagine-se sendo atacado por uma de suas próprias mãos, que tenta repetidamente lhe esbofetear e socar. Ou ao entrar em uma loja e tentar virar à direita, uma de suas pernas decide que quer ir para a esquerda, deixando-o andando em círculos.
No verão passado conheci Karen Byrne, 55 anos de idade, em Nova Jersey, que sofre da Síndrome de Mão Alienígena http://en.wikipedia.org/wiki/Alien_hand_syndrome. Sua mão esquerda e ocasionalmente sua perna esquerda, se comportam como se estivessem sob o controle de uma inteligência alienígena. A condição de Karen é fascinante, não só porque é tão estranho, mas porque nos diz algo surpreendente sobre como nosso cérebro funciona.
Tudo começou depois que Karen fez a cirurgia quando tinha 27 anos, para controlar a epilepsia, que vinha transtornando sua vida desde que tinha 10 anos. A cirurgia para curar a epilepsia geralmente envolve identificar e depois de cortar uma pequena parte do cérebro, onde se originam os sinais elétricos anormais. Quando isso não funciona ou quando a área danificada não pode ser identificada, pode ser sugerido ao paciente algo mais radical. No caso de Karen o cirurgião cortou o corpo caloso, um grupo de fibras nervosas que mantém as duas metades do cérebro em contato constante.
Segundo Karen, "Eu tirava coisas da minha bolsa sem perceber e ia embora. Eu perdi um monte de coisas antes que percebesse o que estava acontecendo." O corte do corpo caloso curou Karen da epilepsia, mas a deixou com um problema completamente diferente. Karen me disse que, inicialmente, tudo parecia estar bem. Em seguida, os médicos perceberam um comportamento muito estranho. "O Dr. O'Connor disse: Karen que você está fazendo? Você está se despindo. Até que ele disse que eu não tinha idéia de que a minha mão esquerda estava abrindo os botões da minha blusa. "Então eu começava a reabotoar com a mão direita e, logo que eu parava, a mão esquerda começava a desabotoar-los outra vez. Então, ele fez uma chamada de emergência para um dos outros médicos e disse: Mike você tem que vir para cá agora mesmo, nós temos um problema".
Fora de controle:
Após a operação a mão esquerda de Karen ficou totalmente fora de controle. "Eu acendia um cigarro, e colocava-o no cinzeiro, então a minha mão esquerda se movimentava e jogava-o para fora. Eu tirava coisas da minha bolsa e sem perceber ia embora. Perdi um monte de coisas antes que eu imaginasse o que estava acontecendo." O problema de Karen foi causado por uma poderosa disputa dentro de sua cabeça. Um cérebro normal consiste de dois hemisférios que se comunicam um com o outro através do corpo caloso. O hemisfério esquerdo, que controla o braço e a perna direita, tende a ser o lugar onde os conhecimentos linguísticos residem. O hemisfério direito, que controla o braço e a perna esquerda é largamente responsável pela percepção espacial e os padrões de reconhecimento. Geralmente, o hemisfério esquerdo sendo mais analítico, domina, tendo a palavra final nas ações que realizamos.
A descoberta da dominância hemisférica teve suas raízes na década de 1940, quando os cirurgiões decididiram pela primeira vez cortar o corpo caloso para tratar a epilepsia. Após a recuperação, os pacientes parecam normais. Mas nos círculos de psicologia, logo eles se tornaram lendas. Isso porque aqueles pacientes, com o passar do tempo, revelaram algo que para mim é verdadeiramente surpreendente. As duas metades do nosso cérebro, contêm uma espécie de consciência separada. Cada hemisfério é capaz de independentemente fazer valer sua própria vontade.
Experimentos cerebrais:
O homem que fez muitas das experiências que primeiro comprovaram isto, foi o neurobiologista Roger Sperry. Em uma experiência particularmente impressionante, que ele filmou, podemos assistir a um dos pacientes com o cérebro dividido, tentando resolver um quebra-cabeças, e onde era necessário reorganizar alguns blocos de modo que coincidissem com o padrão de uma imagem. Primeiro, o homem tentou resolvê-lo com a mão esquerda (controlada pelo hemisfério direito), e que era muito boa nisso. Depois Sperry pediu ao paciente para usar a mão direita (controlada pelo hemisfério esquerdo). E ficou evidente que aquela mão não tinha a menor idéia do que fazer. Então a mão esquerda tentou ajudar, mas a mão direita não quis aceitar a ajuda, então elas acabaram se desentendendo como duas crianças pequenas.
Experimentos como esse, levaram Sperry a concluir que "cada hemisfério é um sistema consciente com desejos próprios, de perceber, pensar, lembrar, raciocinar, desejar e emocionar". Em 1981, Sperry recebeu um prêmio Nobel por seu trabalho. Mas, numa cruel reviravolta do destino, nessa época ele já estava sofrendo de uma doença cerebral degenerativa fatal, chamada kuru, provavelmente adquirida nos primeiros estágios de sua pesquisa, enquanto dissecava cérebros em laboratório.
A maioria das pessoas que tiveram o corpo caloso cortado, parece normal depois da cirurgia. Você pode passar por elas na rua e não observará nada de estanho nelas. Karen foi infeliz. Após a operação, o lado direito de seu cérebro se recusava a ser dominado pelo esquerdo. Ela sofreu com a síndrome da mão alienígena por 28 anos, mas felizmente para Karen, seus médicos descobriram uma medicação que parece ter conseguido manter o lado direito de seu cérebro sob alguma forma de controle.
Mesmo assim ao me despedir eu senti que era um momento delicado, e quando lhe disse adeus, dei as duas mãos para um firme aperto de mãos de agradecimento.