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Versão Completa: A Cultura Pelas Armas De Fogo Nos Eua, Volta A Ser Discutida
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Pinatubo
Uma análise das leis sobre armas de fogo e do modo de pensar dos cidadãos, políticos e legisladores no estado do Arizona, EUA, e suas consequências, escrita por americanos, diante do recente atentado contra a deputada democrata Gabrielle Giffords.

Traduzi e adaptei o texto abaixo do artigo "Arizona's gun culture scrutinized after Gabrielle Giffords's shooting", publicado no site do jornal "Arizona Central" http://www.azcentral.com/news/articles/201...na-gun-law.html , em sua edição de 11/1/11.

A afinidade da população do estado do Arizona com armas de fogo é profunda e remonta a um passado remoto, desde os dias dos caubóis armados de revólveres e espingardas, do duelo em "O.K. Corral" e do Oeste Selvagem. Embora essas imagens icônicas tenham sido esmaecidas ao longo da linha do tempo da história, a cultura das armas no Arizona continua viva e presente. Afinal, este é um estado, onde para muitos de seus cidadãos, a Segunda Emenda da Constituição é quase sagrada, onde dirigir pelas estradas que cortam o deserto, para disparar armas de fogo é um passatempo comum, e onde recentemente se tornou legal entrar com armas em bares e restaurantes, e de portá-las dissimuladas sem nenhum tipo de licença especial.

A paixão por armas no estado, voltou a ser examinada e discutida de forma intensa e apaixonada, desde sábado, depois que um atirador disparou dezenas de tiros do lado de fora de um supermercado em Tucson, matando seis pessoas, incluindo uma menina de 9 anos de idade e um juiz federal, e ferindo outras 14 pessoas, entre elas a deputada democrata Gabrielle Giffords, que foi baleada na cabeça. A polícia afirma que o atirador, um jovem de 22 a, que abandonou a faculdade, e que estava armado com uma pistola Glock 9mm semi-automática e com carregadores (pentes) alongados de grande capacidade, o que lhe permitiu disparar dezenas de tiros sem recarregá-la. O poder de fogo da arma e a carnificina resultante trouxe de volta o debate sobre os direitos de posse de armas em um país ainda atordoado pelo atentado e onde são frequentes os tiroteios em escolas e locais de trabalho.

Nos dois lados que participam do debate sobre a questão da prevenção, um grupo admite que leis mais restritivas sobre posse de armas, poderiam ter evitado que uma arma fosse parar nas mãos do atirador, já o outro questiona se a presença de mais cidadãos armados teria permitido que alguém tivesse acabado com o massacre, assim que começou. O Arizona é um estado com algumas das leis menos restritivas em relação a posse de armas no país, e um estado que, há muito tempo antes de massacre de sábado, vê novas leis que permitem que as pessoas entrem armadas em bares e restaurantes, e as transportem ocultas sem nenhuma autorização. É também o estado onde a tradição do faroeste e sua cultura de direitos individuais, paradoxalmente, colide com o urbanismo moderno: Giffords, uma democrata da segunda maior cidade do estado, é também uma defensora de longa data a respeito do direito de posse de armas.

A cultura do "Western"

Clarence Dupnik , xerife do Condado de Pima, onde ocorreu o crime, foi um dos primeiros a inflamar o debate quando ele classificou o Arizona como sendo a "Tombstone dos Estados Unidos da América", enquanto atacava as leis permissivas do estado como um possível fator que tenha contribuído para o massacre de sábado. Tombstone é uma cidade do Arizona que cresceu na época de mineração de prata, situada a 65 km a sudeste de Tucson, e que se tornou símbolo da violência do Velho Oeste após o infame tiroteio ocorrido em 1881 no "O.K. Corral" (Gunfight at the O.K. Corral), entre Wyatt Earp seus irmãos e membros da família Clanton. No entanto, Tombstone tinha leis mais rigorosas a respeito de armas do que o Arizona tem hoje, disse Bob Bell Boze, editor executivo de "True West", uma revista de Cave Creek dedicada a história do Velho Oeste.

"O mais estranho é que naquela época em Tombstone eles tinham leis sobre armas e o que indiretamente ocasionou o tiroteio em "O.K. Corral", foi o fato de que os caubóis estavam armados. Havia inclusive um decreto que obrigava que as pessoas andassem desarmadas e isso tinha de ser verificado pelo xerife e seus ajudantes, Bell afirmou, continuando: a cultura de armas no Arizona está enraizada no passado rural do estado, naquela época dedicado a pecuária e que remonta a meados dos anos 1800, quando as pessoas para fugir das leis federais, iam para o Arizona, onde era justificada a necessidade da posse de armas para caça e proteção. "Existe um clima passional e independente que faz com que os cidadãos do Arizona tenham um grande apego pela posse de armas de fogo", disse Bell. "Eles não querem ser usurpados desse direito e não querem que lhes digam o que fazer, nem como devem funcionar as coisas no Arizona. É o choque cultural entre o antigo e o moderno, onde atualmente a maior parte da população do estado é urbana, mas ainda existe a antiga mentalidade rural, mesmo entre muitas das pessoas que vivem nas cidades."

Criado em Utah, Les White nunca tinha visto pessoas portando armas abertamente até que se mudou para o Arizona em 1986. "Eu me lembro de ter visto pessoas com armas na cintura e em cabides na parte traseira das cabines de suas caminhonetes. Era muito comum naquela época", disse White, 37 a, dono de uma empresa de pequeno porte e que vive em Phoenix. "Hoje em dia não se vê que tantos como naquela época. Mas eu diria que nós somos o Oeste selvagem...selvagem, e o Arizona é um estado que advoga o direito a posse de armas por seus cidadãos. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso." Les White não possui uma arma de fogo. Mas ele gosta de dirigir pelas rodovias que cruzam o deserto com um amigo, que possui um grande arsenal de armas.

"Atiramos em alvos que podem ser coisas simples como garrafas de cerveja ou algo semelhante", disse White. "Eu atiro com todos os tipos de armas, até mesmo com rifles de precisão, aqueles de alta potência e de outros tipos também."
White compartilha uma forte crença defendida por muitos habitantes do Arizona, incluindo legisladores do estado, que muitos massacres como o que ocorreu em Tucson no sábado, poderiam ser evitados, ou pelo menos com um número de vítimas mais reduzido, se todo mundo portasse uma arma. "Eu penso que mais pessoas deviam andar armadas e saber defender-se, desse modo ao se deparar com um lunático eles poderiam se defender", disse White.

Divisão política

Durante seu primeiro ano de mandato, em 2009, a governadora Jan Brewer assinou uma lei permitindo que fregueses de bares e restaurantes portassem armas dentro dos estabelecimentos, bem como outra que impede que os proprietários de estacionamentos proibam a presença de armas em suas propriedades, desde que as armas sejam mantidas trancadas dentro dos veículos. E em julho de 2009, o Arizona tornou-se o único estado do país, com uma grande população urbana a permitir que cidadãos americanos com 21 anos ou mais, portem uma arma escondida sem nenhuma permissão oficial. Apenas os estados do Alasca e a área rural de Vermont possuem leis semelhantes.

Em 2010, legisladores bloquearam um projeto de lei que permitiria o porte de armas nas dependências das universidades. Este ano, o deputado Jack Harper, reapresentou o projeto. Até agora, 12 outros deputados federais e quatro senadores assinaram a favor. Na segunda-feira, Harper disse que o xerife Dupnik não tinha conhecimento de causa para sugerir que as leis do sobre armas no Arizona, tiveram influência no massacre de sábado, em Tucson.
"O atentado contra a deputada Giffords ocorreu em área da jurisdição do xerife Dupnik e não havia nenhum policial na área do evento. O xerife Dupnik deve parar de culpar os outros pelas falhas de seu departamento", disse Harper.

Joe Arpaio, xerife do condado de Maricopa também rejeitou a afirmação de Dupnik de que o Arizona fosse a "Tombstone dos Estados Unidos". "O que significa Tombstone? Por acaso está todo mundo lá fora na rua, atirando uns nos outros?" Arpaio indagou.

Enquanto isso, os defensores da lei de restrição de armas, afirmam queo tiroteio de sábado mostra a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa.

Pesando restrições

Uma das coisas que os legisladores podem fazer é proibir a produção e a comercialização de carregadores de alta capacidade, como os de 33 tiros, do modelo aparentemente usado no tiroteio de Tucson, disse Robyn Thomas, diretora-executiva da Comunidade Legal Contra a Violência, um grupo de San Francisco dedicado à prevenção da violência armada. "Isso foi responsável por uma grande parte do problema", disse ela. "Os atiradores dos massacres na Columbine, Fort Hood e Virginia Tech utilizaram esses tipos de carregadores", afirmou Thomas.

Carregadores com capacidade para mais de 10 tiros, foram proibidos pela lei de 1994, a mesma que baniu o comércio de fuzis de assalto e que não mais vigora desde 2004. Mesmo durante a proibição, carregadores existentes de alta capacidade ainda eram permitidos para serem comercializados.

"Isso não quer dizer que sem eles, o responsável pelo atentado de sábado teria desistido de cometer o crime, mas poderia ter salvo vidas, se não tivesse sido capaz de disparar tantos tiros rapidamente sem ter que parar por um momento sequer para recarregar a arma", disse ela.

Como os criminosos desse gênero parecem dispostos a morrer durante esses tipos de tiroteios, é improvável que a proibição de certos tipos de carregadores representem um grande obstáculo, disse David Kopel, diretor de pesquisas do conservador Instituto Independence e professor de Direito da Universidade de Denver. "Teria custado mais dinheiro a ele, mas a quantia teria sido de apenas mais algumas notas de US$ 20", disse ele, acrescentando que os atiradores são capazes também de facilmente conseguir tudo que precisam em qualquer mercado negro de armas.

As autoridades dizem que Jared Loughner, 22 a, o homem acusado do atentado em Tucson, comprou a arma usada no crime em uma loja de artigos esportivos em Tucson. Um homem que se identificou apenas como um dos gerentes da loja afirmou na segunda-feira, ao jornal "The Arizona Republic", que durante o ano passado, a loja vendeu apenas dois carregadores de capacidade estendida, similares ao que foi aparentemente usado no sábado. A última venda foi em outubro, disse o gerente. Registros do tribunal, indicam que Loughner comprou sua arma em 30 de novembro. O gerente disse ainda que esse tipo de carregador de capacidade estendida não está sujeito a verificação de antecedentes criminais e estão amplamente disponíveis para compras online.

Lá fora, no estacionamento na tarde de segunda-feira, Bill Trigg, 55 anos, de Tucson, tinha acabado de comprar suprimentos para prática de arco e flecha na mesma loja de artigos esportivos. Ele disse que estava se preparando para o endurecimento da legislação de armas de fogo, o que ele acha não ser necessário. "Tudo se resume à pessoa", disse ele. "Suas ações, suas intenções, sua falta de respeito pela vida humana."

Comentário pessoal:

No ano de 1995, viajei a trabalho até Phoenix, capital do Arizona, onde permaneci durante dois meses, ocasião em que tive a oportunidade de conhecer um pouco os hábitos e modos de agir e pensar das pessoas com quem tive contato e que lá residiam. O calor infernal de 43 graus Celsius a sombra, em pleno verão do hemisfério norte, e numa cidade plantada no meio do deserto de Sonora, assusta e incomoda a tal ponto que não se vê ninguém andando nas calçadas, obrigando os moradores a se esgueirarem de um ambiente refrigerado para outro (casa/carro/escritório/restaurante/shopping/carro/casa).

Com raras exceções, o povo é arisco e antipático, e se por acaso encontramos alguém desconhecido em um local público e a pessoa lhe sorri, o sorriso desaparece num passe de mágica ao nos ouvirem pronunciar a primeira frase, logo nos identificando como estrangeiros e portanto como pessoas não confiáveis e que devem ser mantidas a distância.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os aspectos ligados a cultura das armas de fogo. Para citar apenas três exemplos, posso comentar a surpresa que tive ao entrar em um bar a noite com um colega para uma cerveja e notar que o caixa do bar, vestido de bermuda, camiseta e tênis, carregava ostensivamente em um coldre preso ao cinto no quadril, uma pistola automática de bom tamanho.

De outra vez, passeando por algumas lojas num sábado pela manhã, eis que entro em uma grande que era especializada em materiais de caça e pesca. No mostruários do tipo gôndolas, além das inocentes varas de pesca, molinetes e anzóis, e ao alcance das mãos dos clientes, haviam fuzis semi-automáticos AK- 47 e AR-15 ou 16, sei lá, e por trás dos vidros dos balcões, todo tipo de pistolas, revólveres e respectivas munições. Não bastasse essa facilidade de aquisição, haviam carrinhos do tipo usado em supermercados, destinados, imagino eu, para os clientes que resolvessem fazer grandes compras.

Por último, em uma outra grande loja de artigos esportivos, vi um pai adquirir para o filho de uns 9 ou 10 anos, um rifle semi-automático cal .22. Entre a escolha, e a aprovação do garoto, sob o olhar orgulhoso do pai, a venda foi realizada em uns 10 ou 15 minutos e a arma e munição levadas na hora sem nenhuma exigência de licença ou outra burocracia qualquer.

Por isso, ao ler o artigo acima, a única surpresa que tive foi de que depois de passados 15 anos e de tomar conhecimento de tantos tiroteios com vítimas ocorridos em lugares públicos dos EUA, esperava que a legislação de armas de fogo naquele estado tivesse se tornado mais rígida. Ledo engano. Parece que ficou pior.
Roberto Carlos Costa
QUOTE(Pinatubo @ Jan 11 2011, 10:40 PM) *
Uma análise das leis sobre armas de fogo e do modo de pensar dos cidadãos, políticos e legisladores no estado do Arizona, EUA, e suas consequências, escrita por americanos, diante do recente atentado contra a deputada democrata Gabrielle Giffords.

Traduzi e adaptei o texto abaixo do artigo "Arizona's gun culture scrutinized after Gabrielle Giffords's shooting", publicado no site do jornal "Arizona Central" http://www.azcentral.com/news/articles/201...na-gun-law.html , em sua edição de 11/1/11.

A afinidade da população do estado do Arizona com armas de fogo é profunda e remonta a um passado remoto, desde os dias dos caubóis armados de revólveres e espingardas, do duelo em "O.K. Corral" e do Oeste Selvagem. Embora essas imagens icônicas tenham sido esmaecidas ao longo da linha do tempo da história, a cultura das armas no Arizona continua viva e presente. Afinal, este é um estado, onde para muitos de seus cidadãos, a Segunda Emenda da Constituição é quase sagrada, onde dirigir pelas estradas que cortam o deserto, para disparar armas de fogo é um passatempo comum, e onde recentemente se tornou legal entrar com armas em bares e restaurantes, e de portá-las dissimuladas sem nenhum tipo de licença especial.

A paixão por armas no estado, voltou a ser examinada e discutida de forma intensa e apaixonada, desde sábado, depois que um atirador disparou dezenas de tiros do lado de fora de um supermercado em Tucson, matando seis pessoas, incluindo uma menina de 9 anos de idade e um juiz federal, e ferindo outras 14 pessoas, entre elas a deputada democrata Gabrielle Giffords, que foi baleada na cabeça. A polícia afirma que o atirador, um jovem de 22 a, que abandonou a faculdade, e que estava armado com uma pistola Glock 9mm semi-automática e com carregadores (pentes) alongados de grande capacidade, o que lhe permitiu disparar dezenas de tiros sem recarregá-la. O poder de fogo da arma e a carnificina resultante trouxe de volta o debate sobre os direitos de posse de armas em um país ainda atordoado pelo atentado e onde são frequentes os tiroteios em escolas e locais de trabalho.

Nos dois lados que participam do debate sobre a questão da prevenção, um grupo admite que leis mais restritivas sobre posse de armas, poderiam ter evitado que uma arma fosse parar nas mãos do atirador, já o outro questiona se a presença de mais cidadãos armados teria permitido que alguém tivesse acabado com o massacre, assim que começou. O Arizona é um estado com algumas das leis menos restritivas em relação a posse de armas no país, e um estado que, há muito tempo antes de massacre de sábado, vê novas leis que permitem que as pessoas entrem armadas em bares e restaurantes, e as transportem ocultas sem nenhuma autorização. É também o estado onde a tradição do faroeste e sua cultura de direitos individuais, paradoxalmente, colide com o urbanismo moderno: Giffords, uma democrata da segunda maior cidade do estado, é também uma defensora de longa data a respeito do direito de posse de armas.

A cultura do "Western"

Clarence Dupnik , xerife do Condado de Pima, onde ocorreu o crime, foi um dos primeiros a inflamar o debate quando ele classificou o Arizona como sendo a "Tombstone dos Estados Unidos da América", enquanto atacava as leis permissivas do estado como um possível fator que tenha contribuído para o massacre de sábado. Tombstone é uma cidade do Arizona que cresceu na época de mineração de prata, situada a 65 km a sudeste de Tucson, e que se tornou símbolo da violência do Velho Oeste após o infame tiroteio ocorrido em 1881 no "O.K. Corral" (Gunfight at the O.K. Corral), entre Wyatt Earp seus irmãos e membros da família Clanton. No entanto, Tombstone tinha leis mais rigorosas a respeito de armas do que o Arizona tem hoje, disse Bob Bell Boze, editor executivo de "True West", uma revista de Cave Creek dedicada a história do Velho Oeste.

"O mais estranho é que naquela época em Tombstone eles tinham leis sobre armas e o que indiretamente ocasionou o tiroteio em "O.K. Corral", foi o fato de que os caubóis estavam armados. Havia inclusive um decreto que obrigava que as pessoas andassem desarmadas e isso tinha de ser verificado pelo xerife e seus ajudantes, Bell afirmou, continuando: a cultura de armas no Arizona está enraizada no passado rural do estado, naquela época dedicado a pecuária e que remonta a meados dos anos 1800, quando as pessoas para fugir das leis federais, iam para o Arizona, onde era justificada a necessidade da posse de armas para caça e proteção. "Existe um clima passional e independente que faz com que os cidadãos do Arizona tenham um grande apego pela posse de armas de fogo", disse Bell. "Eles não querem ser usurpados desse direito e não querem que lhes digam o que fazer, nem como devem funcionar as coisas no Arizona. É o choque cultural entre o antigo e o moderno, onde atualmente a maior parte da população do estado é urbana, mas ainda existe a antiga mentalidade rural, mesmo entre muitas das pessoas que vivem nas cidades."

Criado em Utah, Les White nunca tinha visto pessoas portando armas abertamente até que se mudou para o Arizona em 1986. "Eu me lembro de ter visto pessoas com armas na cintura e em cabides na parte traseira das cabines de suas caminhonetes. Era muito comum naquela época", disse White, 37 a, dono de uma empresa de pequeno porte e que vive em Phoenix. "Hoje em dia não se vê que tantos como naquela época. Mas eu diria que nós somos o Oeste selvagem...selvagem, e o Arizona é um estado que advoga o direito a posse de armas por seus cidadãos. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso." Les White não possui uma arma de fogo. Mas ele gosta de dirigir pelas rodovias que cruzam o deserto com um amigo, que possui um grande arsenal de armas.

"Atiramos em alvos que podem ser coisas simples como garrafas de cerveja ou algo semelhante", disse White. "Eu atiro com todos os tipos de armas, até mesmo com rifles de precisão, aqueles de alta potência e de outros tipos também."
White compartilha uma forte crença defendida por muitos habitantes do Arizona, incluindo legisladores do estado, que muitos massacres como o que ocorreu em Tucson no sábado, poderiam ser evitados, ou pelo menos com um número de vítimas mais reduzido, se todo mundo portasse uma arma. "Eu penso que mais pessoas deviam andar armadas e saber defender-se, desse modo ao se deparar com um lunático eles poderiam se defender", disse White.

Divisão política

Durante seu primeiro ano de mandato, em 2009, a governadora Jan Brewer assinou uma lei permitindo que fregueses de bares e restaurantes portassem armas dentro dos estabelecimentos, bem como outra que impede que os proprietários de estacionamentos proibam a presença de armas em suas propriedades, desde que as armas sejam mantidas trancadas dentro dos veículos. E em julho de 2009, o Arizona tornou-se o único estado do país, com uma grande população urbana a permitir que cidadãos americanos com 21 anos ou mais, portem uma arma escondida sem nenhuma permissão oficial. Apenas os estados do Alasca e a área rural de Vermont possuem leis semelhantes.

Em 2010, legisladores bloquearam um projeto de lei que permitiria o porte de armas nas dependências das universidades. Este ano, o deputado Jack Harper, reapresentou o projeto. Até agora, 12 outros deputados federais e quatro senadores assinaram a favor. Na segunda-feira, Harper disse que o xerife Dupnik não tinha conhecimento de causa para sugerir que as leis do sobre armas no Arizona, tiveram influência no massacre de sábado, em Tucson.
"O atentado contra a deputada Giffords ocorreu em área da jurisdição do xerife Dupnik e não havia nenhum policial na área do evento. O xerife Dupnik deve parar de culpar os outros pelas falhas de seu departamento", disse Harper.

Joe Arpaio, xerife do condado de Maricopa também rejeitou a afirmação de Dupnik de que o Arizona fosse a "Tombstone dos Estados Unidos". "O que significa Tombstone? Por acaso está todo mundo lá fora na rua, atirando uns nos outros?" Arpaio indagou.

Enquanto isso, os defensores da lei de restrição de armas, afirmam queo tiroteio de sábado mostra a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa.

Pesando restrições

Uma das coisas que os legisladores podem fazer é proibir a produção e a comercialização de carregadores de alta capacidade, como os de 33 tiros, do modelo aparentemente usado no tiroteio de Tucson, disse Robyn Thomas, diretora-executiva da Comunidade Legal Contra a Violência, um grupo de San Francisco dedicado à prevenção da violência armada. "Isso foi responsável por uma grande parte do problema", disse ela. "Os atiradores dos massacres na Columbine, Fort Hood e Virginia Tech utilizaram esses tipos de carregadores", afirmou Thomas.

Carregadores com capacidade para mais de 10 tiros, foram proibidos pela lei de 1994, a mesma que baniu o comércio de fuzis de assalto e que não mais vigora desde 2004. Mesmo durante a proibição, carregadores existentes de alta capacidade ainda eram permitidos para serem comercializados.

"Isso não quer dizer que sem eles, o responsável pelo atentado de sábado teria desistido de cometer o crime, mas poderia ter salvo vidas, se não tivesse sido capaz de disparar tantos tiros rapidamente sem ter que parar por um momento sequer para recarregar a arma", disse ela.

Como os criminosos desse gênero parecem dispostos a morrer durante esses tipos de tiroteios, é improvável que a proibição de certos tipos de carregadores representem um grande obstáculo, disse David Kopel, diretor de pesquisas do conservador Instituto Independence e professor de Direito da Universidade de Denver. "Teria custado mais dinheiro a ele, mas a quantia teria sido de apenas mais algumas notas de US$ 20", disse ele, acrescentando que os atiradores são capazes também de facilmente conseguir tudo que precisam em qualquer mercado negro de armas.

As autoridades dizem que Jared Loughner, 22 a, o homem acusado do atentado em Tucson, comprou a arma usada no crime em uma loja de artigos esportivos em Tucson. Um homem que se identificou apenas como um dos gerentes da loja afirmou na segunda-feira, ao jornal "The Arizona Republic", que durante o ano passado, a loja vendeu apenas dois carregadores de capacidade estendida, similares ao que foi aparentemente usado no sábado. A última venda foi em outubro, disse o gerente. Registros do tribunal, indicam que Loughner comprou sua arma em 30 de novembro. O gerente disse ainda que esse tipo de carregador de capacidade estendida não está sujeito a verificação de antecedentes criminais e estão amplamente disponíveis para compras online.

Lá fora, no estacionamento na tarde de segunda-feira, Bill Trigg, 55 anos, de Tucson, tinha acabado de comprar suprimentos para prática de arco e flecha na mesma loja de artigos esportivos. Ele disse que estava se preparando para o endurecimento da legislação de armas de fogo, o que ele acha não ser necessário. "Tudo se resume à pessoa", disse ele. "Suas ações, suas intenções, sua falta de respeito pela vida humana."

Comentário pessoal:

No ano de 1995, viajei a trabalho até Phoenix, capital do Arizona, onde permaneci durante dois meses, ocasião em que tive a oportunidade de conhecer um pouco os hábitos e modos de agir e pensar das pessoas com quem tive contato e que lá residiam. O calor infernal de 43 graus Celsius a sombra, em pleno verão do hemisfério norte, e numa cidade plantada no meio do deserto de Sonora, assusta e incomoda a tal ponto que não se vê ninguém andando nas calçadas, obrigando os moradores a se esgueirarem de um ambiente refrigerado para outro (casa/carro/escritório/restaurante/shopping/carro/casa).

Com raras exceções, o povo é arisco e antipático, e se por acaso encontramos alguém desconhecido em um local público e a pessoa lhe sorri, o sorriso desaparece num passe de mágica ao nos ouvirem pronunciar a primeira frase, logo nos identificando como estrangeiros e portanto como pessoas não confiáveis e que devem ser mantidas a distância.

Mas o que mais me chamou a atenção foram os aspectos ligados a cultura das armas de fogo. Para citar apenas três exemplos, posso comentar a surpresa que tive ao entrar em um bar a noite com um colega para uma cerveja e notar que o caixa do bar, vestido de bermuda, camiseta e tênis, carregava ostensivamente em um coldre preso ao cinto no quadril, uma pistola automática de bom tamanho.

De outra vez, passeando por algumas lojas num sábado pela manhã, eis que entro em uma grande que era especializada em materiais de caça e pesca. No mostruários do tipo gôndolas, além das inocentes varas de pesca, molinetes e anzóis, e ao alcance das mãos dos clientes, haviam fuzis semi-automáticos AK- 47 e AR-15 ou 16, sei lá, e por trás dos vidros dos balcões, todo tipo de pistolas, revólveres e respectivas munições. Não bastasse essa facilidade de aquisição, haviam carrinhos do tipo usado em supermercados, destinados, imagino eu, para os clientes que resolvessem fazer grandes compras.

Por último, em uma outra grande loja de artigos esportivos, vi um pai adquirir para o filho de uns 9 ou 10 anos, um rifle semi-automático cal .22. Entre a escolha, e a aprovação do garoto, sob o olhar orgulhoso do pai, a venda foi realizada em uns 10 ou 15 minutos e a arma e munição levadas na hora sem nenhuma exigência de licença ou outra burocracia qualquer.

Por isso, ao ler o artigo acima, a única surpresa que tive foi de que depois de passados 15 anos e de tomar conhecimento de tantos tiroteios com vítimas ocorridos em lugares públicos dos EUA, esperava que a legislação de armas de fogo naquele estado tivesse se tornado mais rígida. Ledo engano. Parece que ficou pior.


1_hein029.gif Pois é, amigo. Daí que há muito tempo deixei de comprar a ideia de que sociedade desenvolvida é sinônimo de sociedade rica em país rico. Se prestarmos bem atenção, os EUA nos ensinam um monte de exemplos de COMO NÃO SE DEVE VIVER: estão todos muito gordos, principalmente crianças e adolescentes, consomem um monte de drogas, ainda e como sempre foi, e no quesito violência dão um show à parte. Não à toa, sua indústria cinematográfica - uma das mais ricas do mundo -, cospe e vomita, diariamente e há décadas, trillers sobre violência numa quantidade incrível. De forma não haver como imaginar que, sozinhos, venham a ser pioneiros na consolidação de um novo paradigma que conduza todas as nações a uma experiência de vida mais humanitária. Sou mais Brasil...
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