Rio, 40 graus
O título do post é uma alusão ao filme de mesmo nome, da década de 50, com direção de Nelson Pereira dos Santos. O filme fala, basicamente, da vida cotidiana das pessoas que moram no Rio de janeiro.

O mesmo título foi utilizado por Fernanda Abreu em uma de suas músicas. A letra inicia-se assim:


"Cidade maravilha
purgatório da beleza e do caos
capital do sangue quente do Brasil
capital do sangue quente
do melhor e do pior do Brasil
cidade sangue quente
maravilha mutante
o rio é uma cidade de cidades misturadas
o rio é uma cidade de cidades camufladas
com governos misturados, camuflados, paralelos"

A situação por que passa o Rio é fruto de décadas de ausência do estado, e isto não é novidade para ninguém. Mas o problema vai além: historicamente, as classes menos favorecidas foram marginalizadas e esquecidas, criando um tipo de estado paralelo ao longo do tempo. Criaram suas próprias leis, sua organização.

O poder público, seja por negligência ou por incompetência de resolver o problema, sempre levou a sujeira para "debaixo do tapete", de tal sorte que estabeleceu-se um tipo de relação estranha entre o estado e a criminalidade.

Quem não se lembra de dois episódios relativamente recentes: a vinda ao Brasil do cantor Michael Jackson e a realização dos Jogos Panamericanos. Nestes dois casos, muitos rumores surgiram de que uma espécie de "acordo" foi realizado com os traficantes para a realização tranquila dos jogos. Algo como: "não mexam com a gente que não mexeremos com vocês". Nada foi provado sobre o caso, mas sempre houve uma certeza das pessoas de que os morros do Rio e grande parte da cidade estavam sobre a administração de um verdadeiro poder paralelo.

Nossa total solidariedade ao povo do Rio de Janeiro. Que a PAZ reine definitivamente na cidade maravilhosa!


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Entretanto, o foco principal deste post é outro... É externar a indignação contra uma cultura reinante entre nós, de encarar os grandes problemas, de forma definitiva, somente quando a situação fica insustentável. Um comodismo arraigado que impede-nos de antecipar as soluções de grandes questões nacionais. Falta-nos, no exemplo específico da segurança, um planejamento nacional que trabalhe de forma a prevenir situações extremas como a que vemos hoje no Rio.

Parece estar em nosso DNA esta mentalidade de "ir dando um jeitinho" nos problemas, e essa falta de compromisso ajuda a criar verdadeiros monstros, verdadeiras sombras.

E os exemplos vão se sucedendo: esperamos ocorrer um problema sério com aviões (como o que ocorreu no aeroporto de Congonhas-SP pouco tempo atrás) para rever a situação dos aeroportos; esperamos ocorrer um apagão em quase todo país para rever nossa política energética; ver rebeliões presidiárias ocorrerem e os chefes do tráfico dominaram e amedrontarem nossa sociedade (mesmo estando atrás das grades) para rever a situação presidiária do país; esperamos, enfim, sediar eventos mundiais para encarar de frente um problema histórico de segurança pública...

O que poderá ocorrer ainda em nosso Brasil se não houver uma atenção urgente às reformas tributária e política?
Chegou a hora de despertar aquele sempre esteva "deitado eternamente em berço esplêndido", como gosta de dizer uma amiga minha.