Os termos ética, moral e caráter são constantemente utilizados pelas pessoas e, apesar de aparentemente similares, seus significados revelam-nos um verdadeiro universo inerente à alma humana.
Conscientemente ou não, estamos a todo instante sendo literalmente bombardeados de informações de toda espécie e há naturalmente de nossa parte maior ou menor grau de assimilação deste arcabouço cultural, próprio da sociedade que fazemos parte.
A vida cotidiana, com os compromissos profissionais, a educação familiar, a influência dos meios de comunicação, dos grupos religiosos com seus dogmas; todo esse conjunto é gerador de informações, práticas e ritos que introjetam em nós uma determinada visão de mundo. Estabelecem um tipo de moral a ser seguida.
Assim, aquilo que nossos pais nos passaram como valores, o que aprendemos na escola quando de nossa formação pessoal, os dogmas religiosos, tudo isso forma um conjunto moral que pode ser representado, simbolicamente, por uma força centrípeta (ou seja, de fora para dentro).
Nossa estrutura psicomental ou nosso “eu”, por sua vez, interpreta e elabora todas estas influências morais do mundo exterior. Há um processo interno, por assim dizer, que elabora aquilo nos chega. Uma parte destas informações não farão para nós sentido algum, ou seja, não seremos motivados internamente por essas informações. Outra parcela dessas informações nos farão sentido e passarão a fazer parte de nós. Passarão a fazer parte de nosso “eu”.
Eros e Psiqué. William-Adolphe Bouguereau, Itália, 1895. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Psycheabduct.jpg
Estabelecendo uma relação cronológica, considerando as fases de desenvolvimento humano, perceberemos logo que o grau de receptividade (quase direta) do “eu” às influências do mundo externo será enorme nos primeiros anos de vida do indivíduo e irá diminuindo progressivamente com o despertar do senso crítico desse mesmo “eu”. Essa natureza crítica do “eu” será tanto maior quanto maior for o grau de lucidez mental e equilíbrio do emocional.
Abrimos aqui um parêntese para dizer que o termo "crítica" está sendo usado no texto com o sentido de avaliação, com fundamentação racional e afetiva. A introjeção passa pelo labor mental e simpatia ou afinidade com determinado valor.
De posse destas informações, percebemos a importância dos estímulos verbais e visuais que literalmente imprimimos nas crianças, principalmente nos primeiros anos de vida. De certa forma, esse conjunto de informações iniciais influenciarão quase que decisivamente nas futuras escolhas daquele “eu”, daquela estrutura psicomental.
Felizmente, a coisa não é tão simples assim... cada ser humano é, como sabemos, um “microcosmos particular”. Mesmo com toda influência externa a determinar nossa conduta, nossa elaboração psicomental, nossa resposta interna ao mundo exterior nunca será exatamente a mesma.
Isso entendemos por formação da ética pessoal! Sendo a ética é definida como “ciência da moral” (vide definições no final deste post), ou seja, o que eu “sei”sobre a moral, torna-se evidente que aí houve um processo, um labor do “eu”, sobre as regras e valores morais que lhe chegam do mundo exterior. É isso: a ética faz parte do “ser”, aquilo que foi assimilado e interpretado dos valores morais que chagaram até o “eu”.
Assim, este grande conjunto de valores morais que vêm, do mundo externo, até nossa estrutura psico-mental, passa por nosso senso crítico e, como resultado dessa movimentação interna, alguns resultados são introjetados e outros não.
Ao conjunto de valores introjetados ao longo dos anos, como resultado de nossa formação ética, como resultado da elaboração interna sucessiva dos valores morais, a esse conjunto, chamamos caráter. Ele retrata o saldo, o balanço desta atividade num determinado período de nossa vida, posto que o processo de formação do caráter é altamente dinâmico.
Por isso disse o professor Henrique José de Souza: “caráter é alma”. A alma é dinâmica, e por ser dinâmica, torna automaticamente nossas rotulações pessoais altamente questionáveis... Rotulando alguém, tornamos estático um processo que é, por natureza, altamente complexo e dinâmico.
No campo religioso, as implicações dessa nossa exposição são muito relevantes. A introjeção, digamos, “direta” dos dogmas, não considerando a manifestação interna do senso crítico para a formação da ética pessoal, é a semente daquilo que mais tarde manifestar-se-á (em sua expressão mais negativa) como fanatismo. A tendência natural deveria ser a do senso crítico humano suplantar a natureza dogmática da informação e, assim procedendo, permitir uma formação de uma ética pessoal sobre essa informação. Esse proceder simplesmente quebra a estrutura do dogma, por definição, algo inquestionável...
A formação da ética pessoal (e, em seu conjunto, o caráter), exige o atrito daquilo que nos chega como valor moral com nosso “eu”, gerando, progressivamente, o fogo da consciência.
Continua...
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Dicionário Aulete:
Ética: Do grego ethiké. Parte da filosofia que trata das questões e dos preceitos que se relacionam aos valores morais e à conduta humana. Ciência da moral.
Moral: Do latim moralis. Conjunto de regras de conduta, inerente ao espírito humano, aplicáveis de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, ou a grupo ou pessoa determinada, proveniente dos estudos filosóficos sobre a moral.
Caráter: Do grego kharaktér. Qualidade inerente a uma pessoa, cidade ou região, que as distingue de outra pessoa, cidade ou região. Conjunto dos traços particulares, modo de ser de um indivíduo ou de um grupo.
Conscientemente ou não, estamos a todo instante sendo literalmente bombardeados de informações de toda espécie e há naturalmente de nossa parte maior ou menor grau de assimilação deste arcabouço cultural, próprio da sociedade que fazemos parte.
A vida cotidiana, com os compromissos profissionais, a educação familiar, a influência dos meios de comunicação, dos grupos religiosos com seus dogmas; todo esse conjunto é gerador de informações, práticas e ritos que introjetam em nós uma determinada visão de mundo. Estabelecem um tipo de moral a ser seguida.
Assim, aquilo que nossos pais nos passaram como valores, o que aprendemos na escola quando de nossa formação pessoal, os dogmas religiosos, tudo isso forma um conjunto moral que pode ser representado, simbolicamente, por uma força centrípeta (ou seja, de fora para dentro).
Nossa estrutura psicomental ou nosso “eu”, por sua vez, interpreta e elabora todas estas influências morais do mundo exterior. Há um processo interno, por assim dizer, que elabora aquilo nos chega. Uma parte destas informações não farão para nós sentido algum, ou seja, não seremos motivados internamente por essas informações. Outra parcela dessas informações nos farão sentido e passarão a fazer parte de nós. Passarão a fazer parte de nosso “eu”.
Eros e Psiqué. William-Adolphe Bouguereau, Itália, 1895. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Psycheabduct.jpg
Estabelecendo uma relação cronológica, considerando as fases de desenvolvimento humano, perceberemos logo que o grau de receptividade (quase direta) do “eu” às influências do mundo externo será enorme nos primeiros anos de vida do indivíduo e irá diminuindo progressivamente com o despertar do senso crítico desse mesmo “eu”. Essa natureza crítica do “eu” será tanto maior quanto maior for o grau de lucidez mental e equilíbrio do emocional.
Abrimos aqui um parêntese para dizer que o termo "crítica" está sendo usado no texto com o sentido de avaliação, com fundamentação racional e afetiva. A introjeção passa pelo labor mental e simpatia ou afinidade com determinado valor.
De posse destas informações, percebemos a importância dos estímulos verbais e visuais que literalmente imprimimos nas crianças, principalmente nos primeiros anos de vida. De certa forma, esse conjunto de informações iniciais influenciarão quase que decisivamente nas futuras escolhas daquele “eu”, daquela estrutura psicomental.
Felizmente, a coisa não é tão simples assim... cada ser humano é, como sabemos, um “microcosmos particular”. Mesmo com toda influência externa a determinar nossa conduta, nossa elaboração psicomental, nossa resposta interna ao mundo exterior nunca será exatamente a mesma.
Isso entendemos por formação da ética pessoal! Sendo a ética é definida como “ciência da moral” (vide definições no final deste post), ou seja, o que eu “sei”sobre a moral, torna-se evidente que aí houve um processo, um labor do “eu”, sobre as regras e valores morais que lhe chegam do mundo exterior. É isso: a ética faz parte do “ser”, aquilo que foi assimilado e interpretado dos valores morais que chagaram até o “eu”.
Assim, este grande conjunto de valores morais que vêm, do mundo externo, até nossa estrutura psico-mental, passa por nosso senso crítico e, como resultado dessa movimentação interna, alguns resultados são introjetados e outros não.
Ao conjunto de valores introjetados ao longo dos anos, como resultado de nossa formação ética, como resultado da elaboração interna sucessiva dos valores morais, a esse conjunto, chamamos caráter. Ele retrata o saldo, o balanço desta atividade num determinado período de nossa vida, posto que o processo de formação do caráter é altamente dinâmico.
Por isso disse o professor Henrique José de Souza: “caráter é alma”. A alma é dinâmica, e por ser dinâmica, torna automaticamente nossas rotulações pessoais altamente questionáveis... Rotulando alguém, tornamos estático um processo que é, por natureza, altamente complexo e dinâmico.
No campo religioso, as implicações dessa nossa exposição são muito relevantes. A introjeção, digamos, “direta” dos dogmas, não considerando a manifestação interna do senso crítico para a formação da ética pessoal, é a semente daquilo que mais tarde manifestar-se-á (em sua expressão mais negativa) como fanatismo. A tendência natural deveria ser a do senso crítico humano suplantar a natureza dogmática da informação e, assim procedendo, permitir uma formação de uma ética pessoal sobre essa informação. Esse proceder simplesmente quebra a estrutura do dogma, por definição, algo inquestionável...
A formação da ética pessoal (e, em seu conjunto, o caráter), exige o atrito daquilo que nos chega como valor moral com nosso “eu”, gerando, progressivamente, o fogo da consciência.
Continua...
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Dicionário Aulete:
Ética: Do grego ethiké. Parte da filosofia que trata das questões e dos preceitos que se relacionam aos valores morais e à conduta humana. Ciência da moral.
Moral: Do latim moralis. Conjunto de regras de conduta, inerente ao espírito humano, aplicáveis de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, ou a grupo ou pessoa determinada, proveniente dos estudos filosóficos sobre a moral.
Caráter: Do grego kharaktér. Qualidade inerente a uma pessoa, cidade ou região, que as distingue de outra pessoa, cidade ou região. Conjunto dos traços particulares, modo de ser de um indivíduo ou de um grupo.