Essa história começou na noite de ontem, enquanto via uma reportagem na TV sobre a chamada “geração Y” (sobre como as empresas estão se adaptando para receber, em seus quadros, jovens profissionais que cresceram num contexto sócio-econômico estável, e vivem rodeados por computadores, celulares e todas essas ferramentas que tornam o mundo conectado e interativo). Esses jovens profissionais possuem (segundo a reportagem) um jeito de ser diferente dos profissionais tradicionais pois são, em geral, mais informais e mesmo assim não menos produtivos que os primeiros.

Sua aparente dispersão é, na verdade, uma habilidade própria dessa geração, que tem a capacidade de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, com qualidade. Quando estão motivados, tornam-se muito produtivos. Fiquei, inicialmente, maravilhado com essa visão!
Minha empolgação com este conceito das gerações levou-me a pesquisar mais a fundo e li alguns artigos a respeito. Um exemplo foi uma reportagem da revista Galileu sobre as gerações... Surpreso vi que, por ter nascido em 1975, me “enquadrava” na chamada “geração X”, anterior a geração Y e que tinha nascido numa época em que a tecnologia ainda não preenchia com tanta importância a vida das pessoas e o contexto econômico nacional ainda não era favorável, estável.
Ainda não havia despertado para as implicações destas classificações na vida cotidiana da pessoas. Vi a teoria de maneira, digamos, romantizada, entendendo que finalmente a sociedade não mais reconheceria esta nova geração como desinteressada, sem ideais, alienada, e outros tantos adjetivos que desmerecem a essa atual juventude, por ter acesso a tudo com mais facilidade (educação, trabalho, informação) e “não dar o valor devido” a isso tudo. É comum aos pais de hoje dizerem algo assim “na minha época, fazer tal coisa era muito complicado, muito difícil (e vinha a lista de tarefas e ações quase épicas que eles faziam para chegar a tal lugar, ou fazer tal coisa). Hoje?! Essa moçada não quer saber de nada, tem tudo na mão e não dá valor...”. Esse é, mais ou menos, o mantram executado pelos pais.
Mas, voltando ao assunto, vi na teoria da geração Y um reconhecimento aos méritos da juventude atual e não percebi, entretanto, que esta teoria pode iniciar um processo perigoso de classificação estanque (e burra, portanto) das pessoas. Fui despertado para esse enfoque diferente através de um email que recebi de uma lista, que é uma verdadeira preciosidade (tanto a mensagem quanto a lista! Rs).
O email fala sobre classificar as pessoas como se as mesmas fossem programadas e prontas para ser Y ou X. Nos porões desta e de outras tantas classificações dos seres humanos está a idéia perigosa do rótulo! Rotular uma pessoa é condená-la a ser sempre da mesma maneira, do mesmo jeito, como se fosse saída de uma linha de produção e condenada a ser sempre da mesma maneira... Exagerando um pouco, recuamos no tempo e lembramos de como os seres humanos foram classificados por algumas culturas através, por exemplo, do regime de castas (comuns no antigo Egito e na Índia, até pouco tempo atrás). Na época medieval e até recentemente, tínhamos a nobreza do sangue azul, que não podia ser maculado morganáticamente pelas impurezas da plebe...
O problema não reside na classificação em si. Ela é própria do ser humano que, através da lógica, tende naturalmente a pautar-se pela separação e comparação. O verdadeiro problema reside em rotular e enquadrar alguém como sendo pertencente a tal ou qual grupo condenatória e irremediavelmente. Ou seja, se fulano nasceu em tal ano ou em tal classe social, está condenado a ser da geração X, Y, Z (ou qualquer outra letra que se invente).
O ser humano é, por natureza, dinâmico! Se é dinâmico, pode alcançar habilidades e despertar novas motivações a todo instante. Conheço uma jovem senhora que é tão conectada, integrada e participativa da era da informação quanto qualquer jovem. Pergunto: ela seria classificada, rotulada como fora da geração Y?
Ora, consideremos dois profissionais que atendem aos requisitos mínimos de determinada vaga numa empresa, e que esta empresa passou recentemente a considerar, através de seu setor de recursos humanos, a teoria das gerações X e Y , et. al. Consideremos ainda, que estes profissionais sejam enquadrados nas gerações X e Y (ou seja, um deles nasceu na década de 70 e o outro na década de 80). Dependendo do grau de percepção mais ou menos estanque, conservadora e até preconceituosa do profissional de RH, ele vai tender, quase que imperativamente, a rotular o pretenso sujeito Y como mais capaz, mais a ver com a política e perfil da empresa, mais conectado com o mundo de hoje, com seus desafios, qualidades “inatas” que selecionam Y, simplesmente por ter nascido nos anos 80. Vai condenar os demais por serem deveras "ultrapassados".
Essa visão só teria algum sentido, concordando com o amigo do email, se as colocássemos como padrões alcançados por qualquer indivíduo, seja ele nascido a qualquer tempo...
Há jovens com cabeça e atitudes de velhos e velhos bem modernos e ativos. A beleza da vida está aí: as diversas possibilidades existentes pelo dinamismo da vida!
Há mais para falar sobre isso. Continuamos num próximo post!