Em João Pessoa, capital da Paraíba e sua vizinha cidade portuária de Cabedelo, vivemos um desses momentos, onde os esforços de um grupo de pessoas, no sentido de preservar as tartarugas marinhas que ali têm seu local de desova, batem de frente com um projeto de urbanização de um trecho de suas praias. Literalmente, pretende o poder público destruir “a casa” desses animais, em vias de extinção, para dar lugar a calçadões, ciclovias, estacionamentos e outros equipamentos – até necessários -, mas logo ali? Teria que ser logo ali? Eis a questão. Tem cabimento e racionalidade uma sociedade(grupo dela) substituir o ambiente selecionado pela natureza, para reprodução desses animais, por algo que pode ser transferido para próximo dali, ajudando na preservação?
Em qualquer lugar desenvolvido do planeta essa dádiva da natureza estaria sendo muito bem cuidada, preservada e inteligentemente utilizada como ponto turístico, de pesquisa científica e de geração de riqueza para a comunidade e para o mundo.
Bem, espero que prevaleça um mínimo de bom senso nessa contenda, já que, sobre nossa própria natureza ainda temos muito a aprender...
O texto abaixo, da Drª Rita Mascarenhas, tenta esclarecer com mais propriedade o assunto:
Por Rita Mascarenhas,
“No sábado, dia 23 de outubro, as ONGs Associação Guajiru e a APAN (Associação Paraibana de Amigos da Natureza), estudantes de biologia e moradores do bairro do Bessa, em João Pessoa-PB, realizaram uma manifestação no trecho da praia do Bessa entre o Mag Shopping e o Iate Clube, com o objetivo de protestar contra o projeto de urbanização desse trecho de praia. O projeto prevê a instalação de calçadão, ciclovia e asfalto para o tráfego de veículos e faz parte de um plano nacional de urbanização de praias voltado para o estímulo ao turismo. Entretanto, o trecho em questão, com cerca de 1 300m é área de desova de tartarugas marinhas, em especial, da tartaruga de pente (Eretmochelys imbricata), onde são registrados aproximadamente 20 ninhos por ano. Essa espécie em questão encontra-se criticamente ameaçada de extinção, significando que suas populações estão tão dizimadas que, num futuro breve, se nada for feito, ela estará completamente extinta no planeta.
Tartarugas marinhas têm inúmeros papéis na natureza. Um dos mais importantes é o de servir de alimento para outros animais marinhos. Por isso, de cada mil filhotes que entram no mar, somente um ou dois alcançarão a idade adulta (que se dá por volta dos 30 anos de vida), os demais morrem na forma de alimento para outros animais marinhos como, por exemplo, peixes. Na sequência, esses peixes servem de alimento para nós seres humanos. Na areia da praia os restos do ninho, como as cascas dos ovos e embriões mortos, têm papel de adubo para a vegetação de praia, alimento para insetos e outros animais que pertencem aos ecossistemas de restinga, mangue e, por fim, da Mata Atlântica. Portanto, o equilíbrio ecológico desses locais depende das tartarugas marinhas e, consequentemente, nossa qualidade de vida. Podemos dizer que, ao cuidarmos das tartarugas estamos cuidando de nós mesmos, ajudando na manutenção da cadeia ecológica marinha e, assim, garantindo recursos para a nossa e as futuras gerações.
De biologia complicada, além de serem animais de vida longa, percorrendo centenas de quilômetros nos oceanos na busca de alimento e abrigo, tartarugas marinhas apresentam o que chamamos de fidelidade ao local de nascimento. No momento da emersão do ninho e sua busca frenética pelo mar, os filhotes fazem uma leitura do campo magnético da Terra e, dessa forma, memorizam o trecho de praia em que nasceram, para onde, fielmente, somente as fêmeas voltarão para desovar após atingirem a idade adulta. Ou seja, as tartarugas que vemos nascendo nesse trecho de praia, são únicas e exclusivas dele. Trocando em miúdos, são paraibanas, filhas de paraibanas, netas, bisnetas, tri-netas, etc. de tartarugas paraibanas. A destruição desse ambiente é a sentença de morte dessas paraibanas fiéis ao seu pedaço de chão e do qual dependem para seguir existindo. Além do polêmico projeto, a área sofre uma intervenção positiva do Patrimônio da União, que recupera trechos dessa praia que, ao longo do processo de urbanização do bairro, haviam sido incorporados por moradores aos seus quintais. Em muitos havia piscinas, jardins e outros tipos de áreas de lazer. O que não é correto, pois estes trechos são públicos e, como tal, devem ser devolvidos ao coletivo. Voluntariamente, os moradores recuaram seus muros, e em algumas partes podemos observar a destruição da restinga pela ação dos tratores e máquinas usadas na intervenção. Há que se pensar em uma forma menos danosa ao meio ambiente para a retirada destes destroços, para proteger a restinga, com a vegetação fixadora de dunas, que são os locais de desova das tartarugas. Com a vitória no retorno ao público de áreas até então privatizadas, o que as ONGs e a população esperam é a recuperação do ecossistema, com reconstituição das dunas e da vegetação nativa. Fazer isso é andar na mão do desenvolvimento, aplicar, no seu mais pleno conceito, o tão famoso jargão "DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL", pois, assim, se estará preservando ambientes legalmente protegidos por lei, espécies ameaçadas de extinção e a qualidade de vida dos pessoenses. Fazer isso é garantir que João Pessoa siga sendo a única capital litorânea com desovas de tartarugas marinhas e que as tem porque soube crescer de forma racional. Senão, o que nos restará são fotos históricas da riqueza que tínhamos e deixamos se perder porque não olhamos para o futuro”.
Por Rita Mascarenhas – Doutora em Zoologia, pela UNESP de Botucatu-SP - ASSOCIAÇÃO GUAJIRU – http://www.guajiru.com.br/site/ - Fone: (83)9129.749