Era Semana Santa, uma quinta-feira, 09 de abril de 2009. Ao lado do amigo de pescaria - para nós, Professor Adheildo -, em sua embarcação plana, navegávamos em direção a uma das piscinas naturais do banco de corais da Praia de Cabedelo-PB. Quase tocávamos a crosta das pedras, bem devagar aproveitando a correnteza favorável. Então, tive que gritar: “Pára! Cuidado!” É que cruzava nossa proa um enorme peixe-boi, à flor d’água, vagarosamente, sem nada temer. E não havia por que. Na verdade, ganhávamos o dia, afinal, jamais eu encontrara um desses animais em seu habitat natural, tão perto de casa, tão próximo a mim..., poderia tocá-lo... Dois dias depois, no sábado, voltamos à pescaria num ponto alguns metros além do que havíamos nos colocado antes. Mais profundo, com 3 ou 4 metros de profundidade, onde ancoramos bem próximo ao limite do banco de corais. Minutos depois, a surpresa: emergiam à nossa frente não um, mas dois peixes-boi, talvez um casal – deduzo eu -, pois estavam lado a lado, enormes e logo sumiram no verde escuro do mar no sentido do fundo. Então era verdade que nossa costa, em vários pontos abriga esses curiosos animais e eu jamais esquecerei aqueles dias...

Dia 30 de setembro de 2010, numa quinta-feira, em busca de uma matéria sobre o tema para a próxima edição do nosso jornal BuzzKa, eu e meu filho Beto nos dirigimos à paradisíaca praia de Barra de Mamanguape, no município de Rio Tinto, Litoral Norte da Paraíba, a 84 km de João Pessoa. Lá, fomos recebidos pelo Projeto Peixe-boi do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio (antes IBAMA). Gentilmente acolhidos pelo José Welinghton, recepcionista e guia que, junto ao pessoal da guarda e o barqueiro Val, transmitiu-nos importantes informações. Aqui, alguns espécimes são criados em cativeiros naturais, à beira do mangue. São indivíduos que se perdem de suas mães e chegam a encalhar na beira da praia, por exemplo. Nem precisa falar o quanto é bela aquela área de estuário, onde, durante o passeio de barco pudemos avistar mais dois indivíduos que, aqui e ali, emergem para respirar. Uma maravilha.

Barra de Mamanguape é um desses lugares ainda não devastados pela expansão urbana, pelo poder econômico, guardando uma atmosfera de lugar inexplorado, notadamente decorrente de ter recebido o título de “Área de Proteção Ambiental”. É uma região de estuário, onde o Rio Mamanguape encontra o mar por entre bancos de corais, dunas, etc. Coqueiral exuberante, fruteiras, falésias vermelhas e um enorme manguezal que acompanha todo o desenho das praias e ilhas ribeirinhas e as verdes e limpas águas que lavam tudo por ali, prendem nossa atenção e ajudam a aumentar nosso respeito pela natureza. São poucos os moradores e veranistas que possuem imóveis por lá. Mas já se pode pernoitar em algumas pousadas que também servem boa comida caseira, principalmente peixes e mariscos pescados ali mesmo. Do outro lado da barra, encontram-se outras comunidades como, Bahia da Traição, que tentam manter vivas as tradições da cultura indígena potiguara, que resiste.

As instalações do projeto têm aspecto convidativo, bem cuidado e arborizado. Oferece serviço de guia, exposição permanente com fotos, fosseis, artesanato e várias outras curiosidades referentes ao tema. Os tanques onde são cuidados e monitorados alguns indivíduos, fica numa ilha próxima, a uns 1000 metros da sede, preparados e estruturados com vegetação nativa, á beira do manguezal. De uma plataforma, podemos observar os animais a menos de 5 metros de distância, enquanto eles também não tiram os olhos da gente... Ótima experiência.

O peixe-boi é um animal da ordem dos sirenius, da família dos trichechidae. O nosso peixe-boi-marinho é do gênero dos trichechus. São mamíferos aquáticos e herbívoros. Os vários espécimes estão ameaçados de extinção. Antes, ocuparam o litoral brasileiro desde o Espírito Santo até o Amapá. Devido à caça predatória reduziu-se muito o número de indivíduos e deixou de existir em vários pontos da costa brasileira. São animais que podem atingir 3 ou 4 metros de comprimento e pesar até 600/1000 kg. Estima-se que vivam 70 anos. Sua reprodução se dá em 13 meses de gestação a cada 3 anos. Em cativeiro, recebem alimentação baseada em algumas algas abundantes na região somadas a cenouras, beterrabas e, quando encontrado, o capim agulha. Este último é típico das regiões ribeirinhas e de estuário. Daí, nota-se a importância de se manter intactas as características dos biomas de regiões litorâneas, como forma de evitar o desaparecimento de espécies animais , como o peixe-boi. Estima-se que a população desses animais em todo o litoral brasileiro chegue a apenas 1.600 indivíduos, aproximadamente, portanto, estando em situação crítica quanto à sua preservação. A maior concentração deles se dá no litoral paraibano e, segundo o ICMBio teria havido uma triplicação do número de exemplares, desde a implantação do projeto(28 anos atrás), o que muito orgulha o pessoal do projeto, em Mamanguape-PB

O peixe-boi-marinho encontrado em Barra de Mamanguape difere do peixe-boi-da-amazônia(Trichechus inunguis) em alguns aspectos. Possui pelos e pele áspera, tem cor cinza e possui 4 unhas nas nadadeiras peitorais. O peixe-boi amazônico não tem unhas, é preto de pele lisa e apresenta manchas brancas na barriga e peitoral. Visitá-los em seu habitat natural é uma experiência incrível, já que, se nada for feito para manter projetos como esses, em breve, só poderemos vê-los em vídeo.

Atualmente, alguns indivíduos são monitorados com o uso de algumas tecnologias, como sistemas de rádio transmissão. O equipamento é instalado nos animais que são soltos e vão sendo monitorados por rastreamento. Visitando o projeto, aprendemos que, ao encontrar um peixe-boi marcado com transmissor, devemos seguir as seguintes recomendações:

- Não toque no rádio nem prenda o animal.

- Não dê comida nem água.

- Observe a cor do rádio transmissor e a hora da avistagem.

- Ligue gratuitamente para 9083-3228.3865

Atualmente o Projeto Peixe-boi de Barra de Mamanguape é coordenado pela bióloga e professora Thalma Grisi –
83-9111.5809. E-mail: peixeboi.paraiba@gmail.com