A História e o Tempo
dos Homens Sem-Fim


Capítulo Zero:
Quando o Homem encontra o começo,
e se despede do fim.


O céu de uma manhã costuma ser claro o suficiente para revelar ainda algumas estrelas, brancas e cintilantes. Muitas delas, rezam as lendas de povos que há muito já se foram, são capazes de contar tanto as tragédias de heróis quanto as epopéias gloriosas de infinitos, e velhos, reis, ou rainhas belas. Enfim, o mundo.

A primeira visão de um homem, jovem o suficiente para poder ter em si todos os sonhos do mundo foi justamente essas estrelas. Nu, completamente despido de suas vestes, acordou numa praia, salpicado duma areia tão branca quanto espuma de mar. A sensação que se tem, por instante apenas, quando se acorda e se ouve o mar, é que aquela é a primeira visão do mundo, a primeira melodia, tal como Afrodite poderia ter crido em sua divindade escutar tal som mágico e divino e povoar o mundo, só por inspiração de poetiza, do mais belo amor.

Ali, o jovem, não poderia ter feito outra coisa senão abrir seus olhos lentamente, escutar esse som, e depois, se lembrar de tudo o que era incapaz de mesmo era de se lembrar onde estava, e pouco quis saber, ou puxar pela memória. Ficou ali, parado, imóvel, saboreando somente a sensação estranha, como se só houvesse essa, a de não existir. Talvez existir para ele fosse um fardo, talvez não, uma benção quem sabe, pouco lhe importava. Não existir permaneceu maravilhoso por duas horas. O sorriso apenas precedeu um breve e leve segundo sono, em paz, uma paz estranha e absoluta.

Acordou ainda calma, à sombra de uma nuvem, e pôs-se logo à sentar e à apoiar os braços sobre as pernas, como se se mexer num lugar onde o tempo não parece existir, lhe fosse uma eternidade inteira, e preferiu olhar o mar, e despi-lo com seu pensamento. Notou sua cor de extremo azul que parecia sentir quando encontrava o horizonte. Era ele o divisor e meramente uma linha branca, de dimensões incríveis de oeste à leste sem ser tocado por nenhuma nuvem ou ilhota que se aventura à lhe desafiar.

“É a coisa mais bela, mais linda”, pensou, e sorriu, e passou a mão pela cabeça e ficou meio sem saber o que fazer. Queria por um instante corresponder aquilo com um presente, com a vida, pura e bem vivida. Queria viver, mas ao seu redor só havia a praia, e mar, e o tempo, que sem-fim, esteve ali o protegendo. Ao menos ele sentiu assim.

Finalmente, virou o rosto ou face, para trás. Queria entender, queria saber. Olhou uma floresta verde, de um verde denso, fechado, que estendia à direção de uma montanha, não tão alta, tão verde e cercada de árvores quanto toda a mata abaixo.

A sua pergunta não era onde estaria, mas o que estaria. Aquilo não lhe soava como um lugar, mas um estado de espírito. Caminhou após se estender nu e à formar uma sombra escura sobre a areia, para algum lugar, qualquer lugar. Por fim, após descobrir que não sabia onde estava, parou, fechou os olhos e não sentiu nada, nem um pouco de vento, nem o banho do mar. Imaginou apenas que algo começava, mas não soube ao certo o quê.

Estava em transe mudo,
como se seu silêncio dançasse com a natureza.

Acordou de seu devaneio com voz suave que dizia qualquer coisa que não entendeu. Mesmo estando nu, estava ao seu lado um velho mendigo vestindo qualquer trapo e que pouco se importava com sua nudez. O velho, como todo os velhos, ou tem a insanidade em si trazido pelo desgaste do corpo ou a saberia obtida com a força que faz os pensamentos permanecerem firmes, quando o mesmo corpo, colapsa. Às vezes, alguns velhos são tão estranhos que pareceu que o tempo lhe trouxe como presente um pouco da insanidade, um pouco da sabedoria e o resto de extravagância exagerada, e um prazo ainda longo para se viver com ela. Talvez aquele velho estivesse mais no segundo caso, mas ali, não importava muito se a insanidade existisse. Se ela existisse, lhe soaria normal, o que não lhe soaria normal, seria a lucidez vazia de seus semelhantes.

- Tentei entender os homens ao meu redor. Já estive em muitos lugares, em meu pensamento. Senti todos eles, em todas as suas formas.

Foi o que o jovem disse, ao velho, que pareceu entender o que ele disse, mas o jovem não se sentiu capaz de compreender como. Apenas falou, como num desabafo à um amigo, após longo período de confusão e tristeza. Disse, como pensava, e o velho olhou seu sorriso, nem triste, nem feliz. Por fim, o velho disse, ao seu lado, apoiado em seu bastão, uma vareta de madeira escura um tanto quanto firme, qualquer coisa. Não importava o que queria ter dito, mas o jovem sentiu o que lhe disse, como se em qualquer língua do mundo, aquilo lhe fizesse sentido, mesmo sem saber o que era. Era um jeito de falar que lhe pareceu como o primeiro idioma do homem, no tempo, quando foi criado pelo seu criador, qualquer que seja seu nome, ou história. O velho disse outra coisa, que lhe trouxe paz, e mais outra, e uma outra, terceira por fim. Ambos estavam se falando, sem se olhar, sorrindo e contemplando o mar, que continuava calmo à sua frente. Se entendiam naquele idioma primordial como se fosse a natureza que tivesse ensinado ambos aquilo, como se seus corpos tivesse memórias, não suas almas, e falassem por si só, alheios à suas vontades, independente de seus desígnios.

O jovem, sorriu, e se alegrou, não soube porque, e disse em voz alta, com felicidade quase juvenil, de um garoto:

- Vou para o mar, e voltar!

E deu-se a correr pela praia, mesmo que nu, e a pular naquele mar morno e tranqüilo de água limpa e sem nadar estar na água, como um ser que volta ao útero materno, como se Deus tivesse nascido da água, e não do ventre de uma virgem, como se tudo mais, tivesse existido primeiro ali, e olhou, de longe, o velho, que lhe responder o olhar. Se entenderam como um mestre e um pupilo, um avô e um neto, talvez um pai e um filho, um amigo e outro, qualquer bela relação entre seres fraternos, mas se entenderam, e o jovem levantou as mãos aos céus e gritou ao alto agradecendo à deuses pagãos, deuses tão seus quanto nenhum no qual sabia que existia de fato, mas que lhe faziam sentido naquela felicidade que nenhum raciocínio de bom juízo é capaz de dizer, e disse:

- Obrigado, senhor do Sol, da Luz, e da Vida! Obrigado.

Algumas vezes, nos momentos mais solenes, ou mais simples, os homens agradecem simplesmente e esquecem o quanto são ridículos por não fazerem isso toda hora, por não serem chamados de loucos, malucos e débeis, ou mesmo ridículos, por terem em si um deus, ou todos eles, ou a vida, ou a felicidade, ou o quer que seja. Deu-se conta, tarde, do velho, e decidiu voltar após ter o sol no seu ápice às suas costas. Chegou molhado, pisando pesado na areia molhada com hábito pelas ondas, sorrindo para o velho, um pouco envergonhado por sua atitude, tão amigo dele quanto um cão de seu dono, quanto uma criança de uma outra. Nu em sua frente, estendeu-lhe a mão, e este o puxou, revelando uma força que o jovem não previu em sua aparência fraca e magra, para o chão da areia, e se levantou com algum resquício de agilidade mais rápido que o garoto caia na areia. Por fim, levantou-se e ambos se encontravam nus, e se olhando intrigado como um bugre à um espelho pela primeira vez, como se reconhece-se após longo tempo, mesmo sem nunca terem se visto, viu o velho apontar o cajado para um pano que estava despercebido, sob a sombra de uma pequena oliveira.

Correu para apanhar, e quando ali chegou, observou o pequeno pano branco e uma corda feita de qualquer tira de cipó, enrolada entre si, três delas, que lhe serviria para amarrar o pano ao corpo. Assim pensou. Viu que o velho ria de seus erros, viu que ele próprio não se sentia outra coisa senão um cômico naquela situação. Quando por fim, aprendeu a se vestir, não se perguntou se aquele traje era algo que se vestisse, mas pouco se importou. Estava com uma roupa amarrada por um cinto de improviso, que lhe deixava os braços soltos, e os ombros descobertos. Mas era melhor que nada, era melhor que tudo. Se sentiu feliz, e estendeu sua mão ao velho, em agradecimento que pouco entendeu o gesto, não o respondeu com um aperto, mas preferiu ouvir o jovem sem pouco se importar, dizer:

- Obrigado. Agora posso ser um homem novo, de verdade.

O velho, sem sorrir, falou se apoiando no bastão qualquer coisa, e o jovem pareceu entender como um agradecimento, e o viu seguir em frente, sem pouco se importar com ele, e ouviu outra vez ele dizer algo, como se falasse um local para onde os homens se dirigiriam, um local, qualquer que fosse, já seria melhor que aquele. Mas aquele estado de espírito, aquela praia, ficaria para sempre como uma pequena lembrança, uma memória de um ser que apenas nasce para ver e observar o mundo, ou outra coisa qualquer, que lhe tivesse iniciado, como um banho no mar, ou uma bênção do sol, ou um sentimento de divindade que permeia o ar que ventila o corpo. Mas tais coisas apenas ficaram para trás, tal como as pegadas de dois caminhantes que andaram para a frente, apenas, ladeando uma linha branca chamada vulgarmente de horizonte.