A "piada" do Rock in rio (Por Ari Santa Lucia Jr.)
Não é que eu e outros milhões de brasileiros estamos torcendo pra dar errado, veja bem, não é isso, mas parece que no primeiro mês de vendas de ingressos para o Rock in Rio Lisboa, a impressionante marca de 85 ingressos, você não leu errado, saíram das bilheterias...
Não tem como não dar risada...
Como disse, não sei se é verdade (confirmo na semana que vem, apesar de achar que o número não é esse, o que não importa, pois deu um gancho para o texto abaixo), mas já disse várias vezes que uma idéia dessas ia dar problema. Quase ao mesmo tempo em Lisboa haverá um outro festival, mais comercial, com Linkin Park e mais um monte de gente, que é o evento mais comentado do verão lusitano.
Essa notícia me levou a responder aqui mesmo na coluna vários e-mails que constantemente chegam questionando por que no Brasil não há um festival de rock que vá pra frente. A resposta é simples: esse não é um país sério, e o acesso à cultura é caro.
Olha só, há um tempo resolvi comprar uns cds importados pela internet (coisas que não achava de jeito nenhum no Brasil). Fiz as contas e o preço final saiu mais do que convidativo.
Quase um mês depois recebi um aviso dos correios para a retirada da encomenda, e no verso veio um valor absurdo que não entendi nada. Fui lá na agência e descobri que meus três míseros cds haviam sido taxados e que para retirá-los teria que pagar de imposto um valor maior que o da compra. O vendedor gringo conseguiu a façanha de declarar o valor total com o frete (que raiva!), e ultrapassou os 50 dólares permitidos para importação no país.
Mas o que isso tem a ver com o Rock in Rio, você deve estar pensando. Não pirei (pelo menos ainda...), mas se para comprar três cds importados há um imposto obsceno desses, imagine quanto fica para trazer o equipamento de várias bandas num show de rock? Isso sem contar a burocracia com documentos, vistos e outras coisas que só a terra do samba tem.
E os cachês das bandas que são em dólares, as dificuldades para conseguir patrocinadores, sendo que ninguém consegue isenção fiscal por investir em cultura?
É por isso que um festival (?) como o Skol Beats acontece todo ano. Já escrevi muito sobre isso, e esse evento é na verdade uma festa. Ninguém vai lá pra ver uma banda tocar, porque não existe nenhuma banda tocando.
Lembra que a Skol começou com o Skol Rock e só depois partiu para a eletrônica? Pensa aí: os organizadores não têm dor de cabeça com equipamentos (cada DJ precisa apenas de uma pick up que tem em todo lugar no Brasil), cachês altos (esse caras tocam por mixaria), além de conseguirem um espaço estratosférico na mídia porque é coisa da moda.
Com todos esses pontos, por que investir num festival de rock? Falar mal do Rock in Rio é fácil, mas todo mundo se esquece que antes de cometer essa besteira lá na terra do Manuel, houve várias tentativas para sair do papel a quarta edição brasileira.
Tirar sarro é uma coisa saudável, e neste caso não tem como ignorar, mas é bom lembrar que o problema está aqui dentro e não adianta ficar reclamando. Eu, particularmente, tenho certeza que o RIR Lisboa vai lotar, pois há vários nomes de respeito (até Paul McCartney vai tocar lá...).
Enquanto isso a gente vai levando as coisas com a barriga e pagando uma fortuna pra ver grupos velhos que só tocam aqui e não têm mais importância (não confundir com respeito...). Coisas como Creedence, Steppenwolf, Jetrho Tull e até o Nazareth batem carteirinha todo ano para a alegria dos promotores que faturam alto, enquanto lá fora, como sempre, os caras ficam com o filé mignon.
OBS: Antes de vocês escreverem pra cá me xingando, eu não falei mal dessas bandas, até fui no show do Jethro Tull, mas ver só velharia enquanto o mundo gira lá fora, não dá...
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