Sons Da Maré..., Úmidas Mulheres, Literatura |
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Mar 22 2010, 10:13 AM
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Grupo: Members Posts: 102 Registrado: 3/09/2009 De: Cabedelo-PB Membro N°: 64552 |
8º texto(Parte II) da trilogia 'OS MORROS, OS RIOS, OS MARES' - inéditos Tal como a própria vida, o rio tem seus sons e suas cores e são como marcas que definem e significam. Em cada pedaço, recanto ou curva do imenso rio vê-se mudarem os ares, os estímulos. Predomina a calmaria e incalculável força controlada pela lua tão distante..., até ancho mar, como já bem disse um poeta. À noite, enquanto é total o silêncio, a cor é azul caneta, violeta que quer ser negra, um pesado e escuro risco no chão da cidade. Apenas a flor d’água recebe a visita das cores das luminárias das ruas, com seus tons laranja, brancos, avermelhados, o piscar dos neons e das incansáveis estrelas. Então, é uma grande festa a flor d’água do rio por essa hora, apesar do sereno que se arrasta no fundo rente ao leito silencioso, que esgueira-se, sorrateiro, como que esperando sua hora e vez. O tal silêncio, a cada instante, recebe o açoite de histéricas sirenes policiais, ou, apressadas ambulâncias em busca de vida ou de morte, conforme o destino quiser. Chega a madrugada e explode o mundo em volta. Detona-se a vida na cidade que margeia o velho rio, poluindo os ouvidos, o coração e todos os demais sentidos, num torpor alucinante e alienante que ajuda a mais cedo envelhecerem os homens. Agora, o rio é enchente em obediência à mãe natureza e, logo, será vazante a maré, mudando os destinos, os desenhos das margens e o humor das famílias caçadoras dos mangues. E, antes que chegue o fim do dia e de alguns mundos viventes, tudo será enchente, novamente, alagado, renovar de amor e esperança que ainda não morreu. Por essa hora da manhã, o rio brilha como se fosse caldo de diamante, recebendo o calor dos primeiros raios do sol em fogo e que nos olha de frente, sem piedade. O som é do trânsito que acorda a cidade, mas também é do assobio dos pescadores, muitos, solitários seres, do saltar dos peixes em cardume, do cantarolar das lavadeiras que se aglomeram por entre as pedras, lá aonde o rio ainda não é cidade grande. Levarão quase toda manhã no trato do enxoval colorido e resistente, enquanto as cantigas vão enchendo aquelas paragens, distraindo, inclusive, o rio e seus peixes. São todas de uma lamúria consequente, aguda, que só pode ser cantada na beira do rio, pois, apenas ele sabe do trata aquela emoção. Então, o sol está a pino e torna cálida a manhã que se vai, acompanhada pelas sombras que não a perdem de vista. Tudo está aceso e aquecido, e caminha numa velocidade descontrolada, sem que nada se possa fazer, quando nascerão e morrerão homens e mulheres e a gente nem sabe aonde. O som é extremamente grave, indescritível em partitura. É quase um impacto crônico que transpassa, avassala nossos sentidos. Parece tomar conta de todos os lugares, acelerando por demais o ritmo dos corações que latejam a dor do dia insano. A cor é do meio dia. É branco, brilhante..., com pequenos raios de púrpura cor que escorrem por entre as mãos pedintes... É chegada a tarde e o sol busca, por alguns instantes, seu tom amarelo âmbar que rasga as nuvens violáceas do poente. Tudo isso é visto à flor d‘água, num reflexo que pode ser trazido junto ao peito com as mãos em concha. O rio foi e voltou como manda a lei da maré. Começam a retornar as famílias ribeirinhas orgulhosas do resultado de um dia de trabalho, com marcas na pele impingidas pelo sol escaldante, mas que não fez esmorecer ninguém por ali. O crepúsculo logo chega avisando o fim da tarde, acendendo as primeiras estrelas, as luzes da cidade. Começa o revolutear dos vaga-lumes que se enamoram de velas e lampiões solitários nas palafitas, lá dentro do mangue. Vão chegando as canoas, baiteiras e pescadores com a feira, remédios, cachaça e um rádio novo. Trazem o sal, açúcar e tudo mais que completa a caldeirada. O som é de descanso e de prazer por uma vida digna, que poucos conhecem. Antes que a noite escura se estabeleça, haverá prestação de contas a Deus e à consciência, numa relação próxima e suave, sem atropelos, jogo de culpas ou maledicências, quando os homens serão amantes e as mulheres raios de lua, que se pode abraçar, beijar, e que têm cheiro, suor, movimento, rouco gemido que leva quase toda a noite para silenciar. Úmidas mulheres que seguram a vida na mão, dominando os limites, adorando seus homens, companheiros, que amam em silêncio, igual ao silêncio do rio, que fazem de cama, de leito de amor, por toda uma vida... Ademais, restam as cores e os sons das chuvas torrenciais que lavam os morros e trazem a tenra seiva daquele povo para dentro do rio. E tudo isso tem um som. Também, o canto das brancas garças e lavandeiras que agitam os ares. E, ainda, o estampido maravilhoso do choro infantil dos filhos da maré, nascidos dentro d’água, fazendo ferver de alegria os corações de mães incansáveis no amor pela vida... Por fim, o verdadeiro estrondo e a incandescência provocados pelo silêncio secular do velho e sinuoso rio, em sua perene e vagarosa vigília. Não há como fazê-lo parar... -------------------- Roberto Carlos Costa
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