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As Mineiras
Karina
post Mar 6 2008, 01:54 PM
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AS MINEIRAS

(Autoria contestada! )

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.
Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais,
como é que o falar, sensual e lindo ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à
saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um
contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso?
Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por
engano, só pelo sotaque. Os mineiros têm um ódio mortal das palavras
completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do
caminho (não dizem: pode parar, dizem:'pó parar').
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada
e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando -
apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que
o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom
de serviço. Pouco importa que seja um juiz de direito, um jogador de
futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente
falando, é claro - ele é bom de serviço.
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se
encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?' Para
mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é
desnecessário. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma
mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: Mexe
com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo
'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer
dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com que você mexe,
não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de
'bonitim', 'fechadim', e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: 'E aí,
vão?'. Traduzo: 'E aí, vamos?'. Não caia na besteira de esperar um
'vamos' completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas
prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas
regras não entram. São barradas pelas montanhas. No supermercado, não
faz muitas compras, ele compra'um tanto de coisa'. O supermercado não
estará lotado, ele terá 'um tanto de gente'. Se a fila do caixa não
anda, é porque está 'agarrando' lá na frente. Entendeu? Agarrar é
agarrar, ora! Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo
e ficar com pena, suspirará: Ai, gente, que dó. É provável que a
essa
altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras.
Não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não
arruma briga, mineiro 'caça confusão'. Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que
ele 'vive caçando confusão'.
Leitor, você é meio burrinho ou é impressão? A propósito, um mineiro
não pergunta: 'você não vai?'. A pergunta, mineiramente falando,
seria: 'cê não anima de ir'? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo.
Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer
que a oficial esteja com a razão.
Se você, em conversa, falar:- Ah, fui lá comprar umas coisas...
Que' s coisa? - ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai
para o que. A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios em Minas...
Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'prôcupa não, bobo!'. E
meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem
se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim.
A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o 'tchau' em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz:
'tchau procê', 'tchau procês'. É útil deixar claro o destinatário do
tchau. Então...

Tchau procês!


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