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Erros E Acertos De Rachel Sheherazade Sobre O Carnaval
Roberto Carlos C...
post Jun 3 2011, 07:11 AM
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Durante o Carnaval/2011 e ao longo de alguns dias após, Blogs, microblogs como o Twitter, e artigos publicados em alguns jornais, principalmente paraibanos, deram enorme espaço à divulgação de um vídeo no Youtube e aos conceitos nele defendidos pela jornalista paraibana Raquel Sheherazade, naquele momento convidada por Silvio Santos para ocupar lugar de destaque no Jornal do SBT, o que muito orgulha a todos os paraibanos, claro. No vídeo, vemos uma jovem, bela e inteligente jornalista dando sua particular opinião sobre o fenômeno do Carnaval.

Assisti e guardei o vídeo em arquivo e me dei algum tempo a fim de digerir melhor o que pude ouvir da boca da ilustre jornalista. Repeti o vídeo algumas vezes, tentei recuperar na memória informações que me ajudassem a ratificar aquelas palavras, mas confesso que nada encontrei de consistente. De forma que esse meu artigo, apesar de outras motivações até de caráter emocional, pretende rechear positivamente o conteúdo de um assunto que nos é tão peculiar e que nos atinge de forma tão incisiva, como o do Carnaval. Sugiro que, antes ou depois de ler essas minhas palavras você tenha acesso ao mesmo vídeo, que é curto e objetivo: Link http://www.youtube.com/results?search_quer...razade&aq=f

Devo dizer que em alguns momentos, Raquel, você tem absoluta razão ao apontar problemas causados pelo fenômeno carnavalesco, como: exploração econômica, invasão de hits de mau gosto, violência e amores feitos e desfeitos com relativa facilidade durante os dias de Carnaval. Mas, vejamos: então temos que coibir os jogos de futebol, as manifestações políticas em praça pública, o Forró Nordestino, as procissões religiosas, as feiras livres e até mesmo o fluxo de pedestres nos nossos centros urbanos. Sim, pois são todas essas situações vetor/consequência de grandes aglomerações de pessoas e, em algumas delas, predominando a motivação avassaladora da paixão. Dessa forma, Raquel, você parece sugerir que não usemos nossa paixão, não nos apaixonemos. No mais, a mim parecem infelizes e equivocadas a maioria de suas colocações, à medida que são colocadas por quem pretende ser líder de opinião e ocupa lugar de destaque e responsabilidade da mídia nacional. Comento ponto a ponto algumas de suas colocações:

...conhecimento de causa” – A jornalista julga que o tem sobre o Carnaval por até já ter visitado Olinda na Terça-Feira de Carnaval. Desculpem-me, mas é como eu dizer que, por ter participado de um programa de entrevistas na TV um dia, tenha conhecimento de causa a respeito do que é ser um jornalista. Digo a você, Raquel: é preciso viver um bom tempo as coisas do Carnaval e vivê-lo intensamente para compreendê-lo e até mesmo desgostá-lo o que não é um mal em si.

“O Carnaval é como uma fantasia”... Nesse aspecto você até acerta mas deveria ter valorizado o ponto na sua dimensão necessária, já que é nesse fator de elevação espiritual, ritualística e psico-social que se esconde o bom e necessário combustível não poluente dessa festa e de várias outras expressões culturais – eu diria: de qualquer festa.

“Falsa verdade quanto à origem do Carnaval” – O Carnaval realmente não nasceu no Brasil, igualmente como o Natal, o Teatro, o Cinema, A Paixão de Cristo e mesmo o Jornalismo, mas é possível e fácil – se o quisermos -, considerar que o Carnaval Brasileiro nasceu no Brasil, que o Carnaval Carioca, Bahiano e Pernambucano nasceram no Rio, na Bahia e em Pernambuco, respectivamente. A História e Antropologia nos ensinam sobre a gênesis dos fenômenos sociais de forma a nos instrumentalizar sobre o reconhecimento dos limites temporais, visuais e estéticos das várias manifestações culturais a que temos acesso. Daí o valor do moderno conceito de respeito às diferenças, que tão bem vem sendo difundido de várias formas, de alguns anos para cá. O fato de o Carnaval, no caso brasileiro, lá pelo início do século XVII, ter sido influenciado pelo Entrudo português, que se dava pela Quaresma, e portanto impregnado do sentido prazeroso e comemorativo nada mais nada menos que da liberdade, motivo pelo qual o Carnaval é considerado uma festa profana, não diminui o caráter de ser brasileiro a partir do momento que recebeu contribuições do negro, do índio e dos colonos que aqui viviam por entre prisões, paixões e redescobertas. Expressões ainda hoje presentes em alguns carnavais como: Cordões, Corsos, Pierrôs, Colombinas, Reis, Rainhas, Bailarinos, onomatopéias, ritmos, adereços, Bonecos, fantasias, cores e expressões, tudo, veio de algum lugar, no caso, da França, Itália, Portugal entre outros recantos da Europa Medieval. Assim como as máscaras vienenses e do teatro da Comédia Dellarte(Itália), em parte, vieram do Teatro Grego desde o século V a.c e do Teatro Romano na sequência, só para falar da cultura ocidental. Desde essas origens, sempre, aquelas manifestações de caráter popular sim, exaltavam a alegria em busca do êxtase, já que comemoravam o período de colheita, da fartura, as vitórias que precisassem ser cantadas e contadas aos ventos e derrotas a serem esquecidas – momentos de verdadeira catarse... Eram festas que duravam semanas e algumas peças de teatro levavam o dia inteiro. E quase sempre, desde a Grécia Antiga, essas manifestações eram patrocinadas pelo governo. Já ali havia o necessário caráter público no aspecto de sua promoção. Contextualizando-se os eventos, é possível dizer que as procissões e outras manifestações religiosas medievais promovidas pela Igreja, sendo ela parte do poder da época, davam caráter público ao evento. Daí não ser nenhuma “balela”o caráter popular e público de uma manifestação como o Carnaval. E é indispensável que assim continue a bem da cultura do povo – uma proteção quanto aos efeitos terríveis dos enlatamentos televisivos.

“Patrocínio público de hits de mau gosto do momento” – Talvez se você der uma rápida olhadela para dentro da própria empresa em que trabalha, perceba de onde vem o absurdo da valorização de músicas e ritmos estranhos às tradições do Carnaval. Esse mal deve ser combatido, é verdade, assim como o é a prática de alguns gestores que fazem indevido uso de recursos culturais privilegiando expressões ruins em detrimento de valores locais reconhecidamente construtores de nossas expressões – vide o tema atual do Forró de Plástico. Mas não é acabando com o Carnaval que se resolve isso. A democracia que você não reconhece no Carnaval contemporâneo é a mesma que permite, justo por ser algo democrático, que os vários ritmos convivam, não raro incomodamente. O que fazer, acabar o Carnaval? Não mesmo! Primeiro, elevemos o nível e os pilares dessa nossa defeituosa democracia, em todos os aspectos das nossas relações sócio-políticas, antes de culparmos o Carnaval por isso.

“Ambulâncias e policiais para atender bêbados e valentões” – São necessários sim, não apenas para esses, mas para a grande maioria de foliões(ãs) ordeiros, cujo defeito talvez seja dispor de excessiva alegria e amor para dar em tão pouco tempo. Esses serviços são um patrimônio do povo e, com inteligência, devem ser usados com toda eficiência e com a prioridade que requerem momentos e ambientes de grande aglomeração de pessoas. Que jamais falte assistência às demais pessoas que necessitem e isso é que deve ser exigido e fiscalizado, inclusive para as numerosas equipes de jornalismo que ocupam locais de destaque na paisagem do percurso carnavalesco.

“Carnaval é negócio apenas para uns poucos” – Da mesma forma que o mercado de Tele-comunicação está nas mãos de uns pouquíssimos abençoados desse país, Raquel, num ambiente capitalista há de ocorrer o mesmo com o Carnaval. Mas o mal contido na sua observação ainda encontra no Carnaval um dos poucos pontos de resistência contra uma situação em que empresas como o a que você defende hoje são personagens atuantes. Afinal, a quem mais interessa o enlatamento e o domínio dos meios de produção cultural num país deficiente em instrução, como o Brasil, que não às grandes corporações na área de TV, principalmente? Você também acha pouca a ninharia ganha por micro-comerciantes, ambulantes e festeiros durante os dias de Momo, mas não deve ter ido a eles e perguntado o quanto esse pouco representa para cada um deles, às vezes famílias inteiras. Não raro, ali eles formam pequeno capital para se estabelecerem e sobreviverem até que chegue outra festa. Não é o ideal, mas sinceramente não dá pra diminuir o valor do Carnaval por causa desse defeito da nossa sociedade.

“Carnaval só serve para desperdiçar dinheiro com atendimento às futuras curetagens e atendimentos a casos de DSTs, contraídas ali” – Pergunto que tipo de jornalista é você? Afinal desconhece que curetagens e atendimentos médicos a DSTs são ocorrências corriqueiras, todos os dias, com ou sem Carnaval? E mais, será correto que o povo espere os momentos de tristeza e contrição espiritual para se permitirem ao amor e ao que dele advém? O espírito de liberdade e elevação espiritual do Carnaval quase que exige, dentro de bons preceitos éticos, que o amor e o sexo sejam exaltados, até mesmo para que jovens e velhos reforcem conceitos das boas práticas e desenvolvam recursos de auto-conhecimento de si, do seu corpo e de outrem. Não à toa, o Carnaval é o que é. Algumas regiões do Brasil nem mesmo se manifestam no Carnaval, muitas pessoas já não frequentam a folia, de forma que é possível à esmagadora maioria o livre arbítrio para escolher brincar ou não. No entanto, nenhuma cultura, nenhum povo, nenhuma nação contemporânea dispões de tão grandioso empreendimento social, exuberante manifestação cultural de tão diversa expressão que evidencie tanta emoção e alegria. Desconhecer, fechar os olhos a essa verdade, Rachel é, no mínimo, sucumbir ao pretenso julgo das forças de um capitalismo que só tem olhos para dentro de si. Viver o Carnaval é manter acesa a chama da nossa identidade cultural, auto-estima, de uma prática, onde jovens e velhos, ricos e pobres cantam e dançam no mesmo chão, dividem o mesmo espaço, na melhor das manifestações de amor ao próximo. O ladrão, o violento, o bêbado, o drogado, o empresário inescrupuloso e a gravidez indesejada estão presentes em nossas vidas, não apenas no Carnaval - não raro viram graciosas fantasias... Aliás, se fizerem uma estatística séria, verão que em números relativos às condições em que se dá uma festa carnavalesca, são pequenos os índices desses males por você colocados.

Ainda quero entender e prefiro aceitar o fato de que você quis referir-se à algumas manifestações carnavalescas, como, freviocas, micaroas, carnatais que, ao lado das arenas fest isso e aquilo que enlatam semanalmente um conteúdo duvidoso, pra não dizer sofrível, muitas vezes confundido com eventos como o Carnaval. Mas o povo, aquele que faz a diferença – se é que me entende – esse não mistura as coisas.

Sou um pernambucano que há 8 anos vive em Cabedelo-PB. Talvez por isso tenha tido a motivação de trazer a público essa resposta ao seu vídeo. É que conheço os dois lados dessa moeda a que estamos nos referindo: um que se vende ao lucro fácil e causa danos irreparáveis à cultura popular, sob o patrocínio de grandes corporações televisivas, de empresários e maus gestores públicos; outro que nós foliões pernambucanos, não raro, na companhia de irmãos paraibanos, alagoanos, sulistas, nortistas, sudestinos e estrangeiros sabemos que jamais alguém tirará de nós. Dessa identidade não abrimos mão, Rachel. Nenhum governo, mega-empresa televisiva, jornalística, mesmo que todas juntas, jamais nos tirarão essa alegria. No caso do Carnaval pernambucano, nem mesmo as cordas de isolamento aceitamos, nossos abadás são frutos do imagético fervilhante e colorido de nossa paixão e alegria. Temos todos os ritmos que convivem com o clássico, o rock, o funk, o hip hop, o baião..., e cada um toca a seu tempo, sem ocupar o lugar do outro, a não ser quando o outro quer. Eu sei que em Olinda tem momentos que uns passam por dentro dos outros, cantando musicas diferentes ao mesmo tempo, em plena ladeira, mas é só uma confusão passageira e logo tudo se ajeita... - não seria assim a própria vida?- E mesmo com defeitos, nossa democracia cultural funciona e é ótimo exemplo de como se deve ver e viver um autêntico Carnaval Brasileiro, que não precisa ser maior nem melhor que o Carioca, Bahiano, Paraibano, Vienense... Em fim, respeito às diferenças...

Roberto Carlos Costa é escritor, teatrólogo e arte-educador

Este post foi editado por Roberto Carlos Costa: Jun 3 2011, 07:25 AM


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Roberto Carlos Costa
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