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Caboclo De Lança Do Maracatu Rural, Já tomei 'uma' com ele...
Roberto Carlos C...
post Feb 4 2011, 01:58 PM
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062802drink_prv.gif Já sei – peço desculpas -, mas fiz. Santa ignorância a minha, à época, tomado de emoção e o mais puro espírito festeiro. O fato é que dividi duas ou três doses de whisky com um Caboclo de Lança, que apareceu desgarrado pela rua do bairro onde morei, em Olinda, nos idos anos 80. Era Carnaval, duas horas da tarde, quando ele apontou, incrivelmente azougado, sob o sol escaldante e já havia saído de casa há três dias. A meninada da rua cercou-o querendo amizade, um gesto de afeto, querendo sentir medo, impressionadíssimos com o colorido e exuberância plástica do guerreiro com sua lança, num gestual enlouquecedor, quase hostil, ávido por respeito e dignidade. Não trazia o cravo branco na boca – sinal de ‘corpo fechado’ -, mas tinha os lábios pregados de sede e fome. Não aceitou a refeição oferecida, mas de tanta insistência minha cedeu ao convite para um drink, coisa que a tradição não lhe permitia. Isso eu não sabia, só depois conheci de perto esse aspecto daquela tradição. Mas, tá feito, tá feito. Já paguei o mico e estou à disposição das Divindades do Além para pagar o preço que queiram me cobrar. E assim é o Carnaval Pernanbucano, para alguns...

VESTIDO PARA A GUERRA E PARA O CARNAVAL

Devo reconhecer o quanto me emociono com as coisas da cultura brasileira. Poucas figuras do nosso folclore ganharam tanta projeção nacional e até no exterior quanto o Caboclo de Lança do Maracatu Rural. Isso não se dá por simples acaso. É preciso mexer no caldeirão cultural alguns ingredientes, como: a resistência dos afro-descendentes trazidos à força para o Brasil, desde o Descobrimento; o espírito de sobrevivência, a magia e a cultura indígena que aqui já habitava; os usos e costumes da classe dominante e colonizadora portuguesa, por entre holandeses, franceses, espanhóis e ingleses que por aqui guerrearam, enriqueceram e exterminaram. O tempero a usar é o riquíssimo e inesgotável imaginário mítico e religioso ibérico, mediterrâneo, africano e indígena – o que não é pouco. O tempo, as perdas e ganhos, a natureza exuberante, as humilhações, maus tratos, as miscigenações, as razões do poder, as influências de homens e de deuses. Por trás da máscara que vemos, o arquétipo junguiano do guerreiro, do líder protetor que resgatará seu lugar, seu povo, suas riquezas, sua cultura. O Maracatu é isso: uma grande e incansável luta por dignidade.

Em Pernambuco, principalmente na Zona da Mata Norte, em cidades como, Nazaré da Mata e Goiana – pra citar apenas algumas -, cuja centenária cultura canavieira responde por grande parte dos avanços e atrasos sócio-econômicos da região, há registro de dezenas de Nações de Maracatu. São organizações poderosas, de cunho político-religioso, em muitos casos de mãos dadas com a Umbanda e o Candomblé que, não obstante o olhar incrédulo de alguns, ao longo do tempo vem se impondo como uma expressão cultural viva e edificante. Verdadeira expressão popular, ora festeira, ora política, ora mística, enche de orgulho aquela gente e o povo pernambucano e mais quem chegar de perto e de longe. E boa parte de toda codificação desses traços de cultura popular impregna a figura do Caboclo de Lança. E seu espírito corteja toda essa belíssima e plástica indumentária, às vezes, principal razão de ser desses guerreiros.

Ao som de poderosos tambores, chocalhos, taróis e atabaques, eis que vem ele e sua guiada(lança), além de 30 a 40 kg de roupas e adereços: Ceroulão(calça de chita com elástico prendendo à perna); Fofa(calça frouxa franjeada por cima do ceroulão); Meião(tipo jogador de futebol); Surrão(também conhecido como ‘maquinada’ – armação de madeira coberta de lã colorida, amarrada às costas, arqueando os ombros. Traz presa uma bolsa de tecido imitando couro de carneiro onde são presos cerca de 5 chocalhos na altura das nádegas); Chocalhos(emitem um barulho seco e agressivo, compassado com o movimento do caboclo, tentando espantar o azar); Gola(por cima do surrão, vai até os joelhos. Representa a maior parte de todo orgulho do Caboclo de Lança. Geralmente é de terbrim ou veludo, recebendo milhares de enfeites e adereços como, lantejoulas, vidrilhos, canutilhos e miçangas que o coboclo mesmo prega, tudo às custas de todas as suas economias. A cada ano essa peça vai recebendo mais e mais adereços, sendo possível reconhecer o valor do guerreiro pelo nível de elaboração dessa roupa); Lenço(colorido, amarrado na cabeça); Cabeleira(enorme, formada por finas tiras de papel celofane colorido e brilhoso, semelhante à juba do leão – símbolo de força, poder e privilégios que devem ser respeitados -, explicados na Mitologia e Psicologia, principalmente na perspectiva junguiana: são aspectos e símbolos encontrados no “inconsciente coletivo”); Galho de Arruda(atrás da orelha) e Cravo Branco(na boca – significando ‘corpo fechado’); Lança(guiada – de madeira e enfeitada com tiras de seda coloridas para dar impressão de velozes); Sapatos tênis ou Alpercatas( que suportem longas caminhadas por vários dias); Óculos( escuros – como a querer um disfarce, uma outra identidade); Pintura(no rosto com urucum, igual aos índios antes de entrar em combate.

São impressionantes, às vezes em grupo protegendo o cortejo, com damas, rei e rainha. Destemidos, desconfiam, ameaçam, protegem os seus – é seu momento - ... De forma que foi assim que paguei aquele mico: não reconheci ali sua história, sua cultura e seu aspecto de verdadeira Entidade... Quase forcei o homem a beber comigo. Mas, finalmente deu tudo certo. Assim é parte daquele tal carnaval pernambucano!

Pesquisa baseada em texto acadêmico de Roseana Borges de Medeiros – UFRPE, por ocasião da 7ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação – “O Caboclo de Lança do Maracatu Rural – o trabalhador rural se prepara para enfrentar a luta de classes”.


Este post foi editado por Roberto Carlos Costa: Feb 4 2011, 02:08 PM


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Roberto Carlos Costa
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Pinatubo
post Feb 4 2011, 10:50 PM
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Gott nytt år !!!


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Conhecia o maracatu apenas como referência a um ritmo musical. Interessante o lado folclórico ligado a essa tradição pernanbucana.

QUOTE
...principalmente na perspectiva junguiana: são aspectos e símbolos encontrados no “inconsciente coletivo”); Galho de Arruda(atrás da orelha) e Cravo Branco(na boca – significando ‘corpo fechado’); Lança(guiada – de madeira e enfeitada com tiras de seda coloridas para dar impressão de velozes); Sapatos tênis ou Alpercatas( que suportem longas caminhadas por vários dias); Óculos( escuros – como a querer um disfarce, uma outra identidade); Pintura(no rosto com urucum, igual aos índios antes de entrar em combate...


A autora obviamente é uma seguidora da escola de Jung. O texto em "Quote" reflete bem a definição junguiana de persona, ou seja, numa imagem mais alegórica, a "máscara" consciente ou inconsciente, com que os indivíduos se apresentam, e/ou o caráter que assumem, e através dos quais se relacionam uns com os outros, incluindo os papéis sociais, a escolha dos tipos de roupas, os gestos e o estilo de expressão pessoal. As informações geradas dessa "troca" com outros indivíduos, são peneiradas e produzem ou não repostas que podem ir de uma simples aceitação ou negação, até as complexas fórmulas de comunicação com o mundo exterior.


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Roberto Carlos C...
post Mar 27 2011, 10:38 AM
Post #3





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QUOTE(Pinatubo @ Feb 4 2011, 10:50 PM) *
Conhecia o maracatu apenas como referência a um ritmo musical. Interessante o lado folclórico ligado a essa tradição pernanbucana.

QUOTE
...principalmente na perspectiva junguiana: são aspectos e símbolos encontrados no “inconsciente coletivo”); Galho de Arruda(atrás da orelha) e Cravo Branco(na boca – significando ‘corpo fechado’); Lança(guiada – de madeira e enfeitada com tiras de seda coloridas para dar impressão de velozes); Sapatos tênis ou Alpercatas( que suportem longas caminhadas por vários dias); Óculos( escuros – como a querer um disfarce, uma outra identidade); Pintura(no rosto com urucum, igual aos índios antes de entrar em combate...


A autora obviamente é uma seguidora da escola de Jung. O texto em "Quote" reflete bem a definição junguiana de persona, ou seja, numa imagem mais alegórica, a "máscara" consciente ou inconsciente, com que os indivíduos se apresentam, e/ou o caráter que assumem, e através dos quais se relacionam uns com os outros, incluindo os papéis sociais, a escolha dos tipos de roupas, os gestos e o estilo de expressão pessoal. As informações geradas dessa "troca" com outros indivíduos, são peneiradas e produzem ou não repostas que podem ir de uma simples aceitação ou negação, até as complexas fórmulas de comunicação com o mundo exterior.



Isso aí, amigo. O Maracatu, enquanto folguedo popular, tem na figura do Caboclo de Lança apenas um dos vários disfarces, sejam da representação de divindades/entidades, sejam de personagens da Corte Portuguesa, principalmente. Rei, Rainha, Bonecas..., todos têm em suas indumentárias e máscaras razões de ser bem definidas. Ainda há diferenças entre o Maracatu Rural e o Maracatu de Baque Solto, este urbano e com algumas variações na sonoridade, ritos, etc...


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Roberto Carlos Costa
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