Silêncios Do Mar E Do Tempo, Literatura |
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Silêncios Do Mar E Do Tempo, Literatura |
Apr 10 2010, 12:43 PM
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Grupo: Members Posts: 102 Registrado: 3/09/2009 De: Cabedelo-PB Membro N°: 64552 |
3º texto (Parte III) da trilogia 'OS MORROS, OS RIOS, OS MARES' - Inéditos Saímos em direção ao mar aberto e esverdeado. Eu e meu amor, a consciência, cansaço, em busca de liberdade possível, à procura de novos ares e novos beijos, velhos e quentes abraços, afagos. Queríamos paz, espaço, falar sem sermos ouvidos, mudanças de cores, hábitos, paragens. Fomos o mais longe possível, onde as ondas são verdadeiras montanhas, imprevisíveis, absolutas. O barco pequeno precisou pedir permissão ao velho mar que nos acolhia e ajudamos entregando-lhe flores, acariciando-lhe a pele, - sim, o mar tem uma pele cristalina -, e assim, mudou um pouco para nós o mundo que costumávamos ver. Passou parte do tempo que tínhamos e todas as palavras foram ditas. Ficamos um tanto indiferentes um ao outro, mas, logo, uma marola nos colocou abraçados, molhados, suados de água e amor. A água assumia, à medida que avançávamos mar a dentro, um tom azul anil e conseguimos ver os feixes de raios de sol encravarem-se no dorso daquele mar, aprofundando sua luz em busca do leito distante. Ora, se nem mesmo o sol conseguia chegar aonde queria, imagine-se... O silêncio do mar é diferente e é preciso nascer ali para suportar seus efeitos. Tudo é imenso, condensado, profundo, até onde nem podemos imaginar suas formas. Quem quebra o silêncio é o vento que vai e que vem, com mais ou menos paciência, perseguindo algo na superfície das ondas, ou, procurando brecha para entrar no mar. A água também reclama um pouco a presença de quilhas cortantes que ajudam as embarcações a singrar na superfície e, então, fustiga-lhes os cascos, as beiradas, aplicando rápidas palmadas que fazem algum barulho. Predomina o silêncio das ondas que, ao perceberem nossa presença, reclamam explodindo suas cristas e é a espuma quem fala num reclamo, que vai passando e se cala adiante. O silêncio é quem avisa sobre as mudanças de tempo, a chegada da tormenta, as mudanças da maré – sinais vitais para os homens do mar, alerta para os perigos, quando das calmarias, a presença de enormes animais, a distância de casa e de terra firme. No mar, o silêncio é ensurdecedor... No fundo das águas do mar, mesmo que não se possa chegar ao leito submerso é maior tal silêncio, sinônimo de paz. É quando se pode escutar, claramente, a consciência, ao sabor de sinuosas correntes marinhas, batalhando contra o empuxo que tenta expulsar os seres de insanos pensamentos. No mar, silêncio é o mesmo que cor, o mesmo que imagem, medo, prazer – coisas que não se pode pegar, mas, que sentimos e estão ali presentes, exuberantemente bem postadas pela natureza maior. Ainda quanto aos sons: que sons esperar ouvir saídos da linha do horizonte, do fundo azul e escuro de alto mar, de além mar? Parece haver uma longa vigília por algo que se anseia, no mínimo, porque é simples dirigir o olhar para o mar enorme e silencioso. Houve tempo em que tudo, todos os recursos advinham do outro lado do mar: homens e mulheres, comida, panos para vestes, ornamento, dinheiro e armamento, ideias e ideais, amores e infortúnios, estrangeiros, costumes de outrem... E tudo chegava em silêncio, sorrateiramente, com cuidados para não acordar os que dormiam sono inocente. Aguardavam as calmarias das águas e aportavam, atracavam, atacavam, ocupavam os espaços e que imperasse o silêncio total, igual ao do mar... Nos tempos de hoje, já não se olha tanto para o horizonte em busca de vida, de dinheiro, dos amores prometidos, das músicas de além mar, das pinturas e invenções de outros olhos. Também, não se tem o olhar na direção da terra, imensa, que aguarda melhor decisão e atitude. E o silêncio, por tudo isso, parece ser ainda mais incômodo e devastador. Por outro lado, posicionados aqui, nas águas de alto mar, que sons ouvir saídos do horizonte recortado das terras que vemos: serras, morros, praias, interiores dos campos de além e dos peitos esmagados por ondas sujas e que parecem não quebrarem nunca? Que sons ouvir gritados por lágrimas de desespero, do movimento de corpos sem lugar, de desejos não satisfeitos? Ah, que bom seria se não fosse incontável a minoria de miseráveis que desconhecem até o que comer de tão imenso e dadivoso mar!... O silêncio é grande, também, nas consciências, nos corações – logo neles -, nas falas, pois, devíamos dar maior atenção ao que não é dito, no que não nos deixam ouvir, aos amores que ainda não são conhecidos, à felicidade que ainda não foi cantada por aqui. É hora de dar ouvidos aos silêncios do mundo, pois, é neles que dormem sossegados os bons caminhos, o lugar seguro, a seiva aventureira que impulsiona corpos e mentes humanas, em sintonia com o mundo restante. É do mar e dos seus silêncios que sairão as novas ideias, mesmo que dos mares de lágrimas, do suor mal aproveitado, da abundante salivação dos que lutam, dos mares de sangue que avermelham os peitos, os olhos, as mãos, os corais, a pele-couro surreal resplandecente das sereias, que nadam as águas com seios e olhares vigilantes. Delas, não esperemos tanto silêncio, pois cantam suave canção de alento e de amor, que ouvimos sem ainda o perceber. De súbito, o vento ganhou velocidade, agitaram-se as cristas das ondas desorientadas, até que rompeu a corda da pequena âncora que havíamos baixado, naquele exercício de contemplação. O barco deu uma guinada rumo à terra e começou a seguir viagem, ao sabor de providencial correnteza, que guiava-nos com suavidade, inclusive, nossos corações, naquele momento. A tarde que se apressava em chegar era puro sonho, calor poente, ressaca de águas e corpos amantes, flutuantes, mais rápidos, logo, vagarosos. Os movimentos entravam em sintonia, inclusive, com indecifrável silêncio que, agora, conhecemos um pouco seus sons. Nossos olhares estavam nas estrelas que abriam passagem nos limites do céu, que queria dizer alguma coisa, ali, também – código de silêncio. Precisamos aprender sobre isso. Turquesa, violeta, azul real e céu, ocre, cinza, o branco das nuvens inocentes... No horizonte, azimute de olhos insatisfeitos, quase um negro nebuloso, azulado. Do outro lado, à nossa frente, um céu incendiado, de brasas cansadas, brasis descontentes, relutantes filamentos de luz e de vida. As nuvens pareciam em ebulição. À medida que se aproximava o sinuoso litoral, ganhava vida o verde denso dos coqueirais e das montanhas de sonhos e esperança, do que é feita aquela imagem... Nossos corações, parecia, iam sair pela boca, arfantes eram nossos peitos naquele instante, melhores eram nossos pensamentos, posto que, o mar igualara-nos ao melhor dos seres humanos: os humildes – enquanto ricos -, os ricos – enquanto pobres -, pois, neles sobra espaço em apertados corações... O velho mar nos devolvia, assim, ao lugar de sempre. Recebemos o cumprimento das ondas à beira mar, a brisa já era amena e compensava o calor providencial do sol, ao longo de um dia que pareceu uma vida inteira. Num último olhar para tão querido mar, vendo através da noite que se instalara, não encontramos o luar de sempre, sinal, talvez, de que não se pode obter tudo ao mesmo tempo. Melhor foi, então, guardar na memória o que nos disseram tantas sereias, com sua música encantadora, melodia que fala e exalta, em silêncio, o melhor dos nossos sonhos e sentimentos. Ao pisarmos terra firme, foi grande o tremor que sentimos por todo o corpo, o pensamento caminhou a mil, ficamos um tanto atônitos e lágrimas encheram nossos olhos, pois, haveríamos de seguir em frente, menos por nós mesmos, mais pelos que sofrem e muito ainda estaria por vir... -------------------- Roberto Carlos Costa
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